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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Passarinho


O avô de Joia parou de falar no dia em que matou o irmão dela. O menino se chamava John, e achava que tinha asas. Subia e saltava do alto de qualquer coisa, até ganhar do avô o apelido de Passarinho. Joia não teve a chance de conhecê-lo, pois Passarinho se jogou do penhasco bem no dia em que ela nasceu. Ainda assim, por muito tempo ela viveu à sombra de suas asas. Agora, aos doze anos, Joia mora em uma casa tomada por silêncio e segredos. Os pais culpam o avô pela tragédia do passado, atribuem a ele a má sorte da família. Joia tem certeza de que nunca será tão amada quanto o irmão, até que ela conhece um garoto misterioso no alto de uma árvore. Um garoto que também se chama John. O avô está convencido de que esse novo amigo é um duppy — um espírito maldoso —, mas Joia sabe que isso não é verdade. E talvez em John esteja a chave para quebrar a maldição que recaiu sobre sua família desde que Passarinho morreu. 
Adoro quando uma história me sequestra. Passarinho me pegou de surpresa, roubou minha atenção e grudou em minha mente.

O livro começa no décimo segundo aniversário de Joia e é narrado por ela. A garota nos mostra sua rotina e conta como sempre conviveu com o silêncio. Em sua casa, as palavras são utilizadas apenas com o intuito de comunicação. Ninguém senta para conversar, ninguém conta histórias, ninguém ri. Mas, nem sempre foi assim. Antes de Joia nascer, a casa transbordava alegria. Seus pais eram pessoas felizes e seu avô falava. No dia em que Joia nasceu, o seu irmão morreu. Ele se chamava John, mas seu apelido era Passarinho. Enquanto Joia vinha ao mundo, Passarinho voava de um penhasco. No dia em que Joia nasceu, tudo mudou.

Aquele dia, que deveria ser o mais feliz na vida de toda a família, se tornou o mais triste. Os pais de Joia se fecharam, o avô parou de falar e a tristeza reinou. Por mais que a pequena Joia se esforçasse, não conseguia arrancar um sorriso verdadeiro de ninguém. Joia sentia falta de conversar de verdade com alguém. Sentia falta do irmão que não conheceu e sentia falta da família que existira ali. E, por mais injusto que fosse, ela não conseguia mudar as coisas ao seu redor.

Até que ela conheceu John. No mesmo dia do seu aniversário. Seria mesmo uma coincidência? John era sobrinho de um morador da cidade e estava passando as férias na casa do tio. Ele era adotado, queria ser astronauta e gostava de escalar. E assim de surpresa, John entrou na vida de Joia, virou seu (único) amigo e, para desgosto do vovô, passou a frequentar a sua casa, com o que parecia ser a chave para o maior segredo de sua família.
“Aprendi, naquele momento, que corações não usam palavras para falar, ao contrário do que dizem os filmes e as músicas. Acho que precisam de muito mais espaço.” Página 161
Quando solicitei o livro para leitura, imaginei que iria ficar tocada pela história por John ter morrido com apenas 5 anos. Mas me enganei. Claro, fiquei muito triste por John, mas fiquei ainda mais triste por Joia e por toda injustiça que ela sofreu. Não que eu esteja julgando os pais. Acredito que nem eles percebiam o mal suas atitudes causavam. Fiquei triste por Joia se sentir indesejada e por ela acreditar que era sua responsabilidade a dor que os pais estavam sentindo. A autora conseguiu transmitir muito bem essa confusão presente na cabeça da garota.

Mas se engana se você acha que o livro é todo tristeza. Joia tem um jeito bem peculiar de encarar a dor e suas visitas a certo penhasco me causaram frio na barriga. Além disso, sua amizade com John é doce e fiquei com um sorriso no rosto em diversas partes. Sem contar as incríveis descobertas que Joia fez, bem ali, na cozinha de sua casa. 

O livro também aborda religião e misticismo. A parte paterna da família de Joia veio da Jamaica e acredita em maldições e em duppys, espíritos maldosos que prejudicam as famílias desprotegidas. Então, o pai e o avô de Joia dedicam muito tempo a amuletos e plantas que servem para espantar e confundir os duppys. Joia não sabe ao certo se acredita ou não em duppys, mas não conta pra ninguém para não desrespeitar o pai. Já a mãe de Joia é católica, mas não vai á igreja tem um bom tempo e acha toda a história de duppys uma grande bobagem. 

Passarinho tem pouco mais de 200 páginas e uma história densa, contada de forma doce. É um livro único, extremamente sensível e sincero, que mostra a dor pelos olhos de uma criança. Gostei muito da leitura e recomendo de mais. É o livro de estréia da autora Crystal Chan e espero que ela escreva muitos outros. 
“- Às vezes Deus fala conosco por intermédio de seres humanos – continuou o padre Jim-, mas ele pode usar toda a sua criação.
-Porque eu está em todo lugar.
-Sim.
-Então minhas pedras são belas porque vejo nelas um pedaço de Deus.
O padre Jim sorriu.” Página 174
*Este livro foi uma cortesia da Editora Intrínseca. 

13 comentários:

  1. Eu quero tanto ler esse livro! Me apaixonei por ele assim que li a sinopse. Ótima resenha.
    formula-amor.blogspot.com

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    1. Oii Sofia, se você curtiu a sinopse, então acho que vai amar a leitura! :D

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  2. Parece ser otimo esse livro!
    Adorei a sinopse dele! Vou procurar para ler!

    Bjs
    www.garotadebotas.com

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  3. Gabi, amei a resenha e a sua delicadeza ao falar sobre a história. O livro entrou certamente na minha wishlist!!

    Beijinhos
    www.serleitora.com.br

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    1. Oii Érica, fico feliz que você gostou! Depois me conta o que achou da história, eu acho que você vai gostar. :)

      Beijo!

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  4. Eu adoro os livros que você coloca por aqui. São sempre "novos", longe daqueles que todos lêem, eu fico com tanta vontade de comprar logo em seguida. Hahaha Um beijo
    www.namesmafrequencia.com.br

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    1. Que bom saber disso! haha Nada contra os "livros do momento", mas gosto de inovar de vez em quando. :)

      Beijo!

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  5. Que legal Gabriela, ainda não tinha lido nada sobre esse livro em nenhum lugar! É tão bom quando a gente encontra resenhas de livros assim, um pouco fora do que TODO MUNDO anda lendo. Adorei a resenha!

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    1. Oii Camila!
      É lançamento da Intrínseca e foge bastante dos livros que estão "na moda", viu? É uma história única.
      Que bom que você gostou! :D

      Beijo!

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  6. Oi, Gabriela!
    Já tinha visto a capa desse livro e me chamou a atenção, mas não tinha lido nenhuma resenha ainda.
    Gostei, ainda mais porque você disse que a história te prendeu bastante.
    Parece ser um tanto diferente!
    :D

    Beijo

    www.casosacasoselivros.com

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    1. Oii Teca, que bom que você curtiu. É uma história bem peculiar mesmo! :)

      Beijo!

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  7. Adorei sua resenha Gabriela! Coloquei o livro na lista de leitura urgentes, pois fiquei muito curiosa! Gostei muito do blog, parabéns! Me tornei a milésima seguidora! o/
    Beijos

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    1. Oii Samara! Depois vem me contar o que achou do livro, tá?
      E muito obrigada por ser a milésima seguidora! haha :D

      Beijo!

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