INÍCIO SOBRE PARCEIROS RESENHAS ENTREVISTAS CONTATO

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Especial de Halloween: Conto VI - parte 3

O Halloween chegou e com ele a última parte do Conto VI. E gente, o final está surpreendente, vale a pena ler!!

Se você ainda não leu, clica aqui para ler a primeira parte e aqui para ler a segunda parte.  

IX -  Interlúdio.
Dois braços e uma costela quebrada. Não corria mais risco de vida e estava apenas repousando.
Ian estava sentado ao lado do leito de sua mãe no hospital.
Era manhã do mesmo dia.
Ian estava se sentindo culpado pelo que havia acontecido. Alias, ele era o único culpado pelo que havia acontecido.
Nenhuma testemunha ocular, apenas alguns vizinhos viram o resultado do que aconteceu. 
Aparentemente a mãe de Ian havia atropelado uma vaca na frente de sua casa. Mas Ian sabia que isso não havia acontecido.
A vaca havia caído do céu.
Jamais iriam achar uma explicação lógica para isso. Mas a vaca havia caído do céu. E Ian sabia disso, afinal, foi o que ele escreveu no seu Conto VI.
Ian ligou a televisão, e as notícias já estavam correndo.
Uma mulher loira com um microfone estava à frente de sua casa. O carro ainda estava no mesmo local. A vaca deveria estar num veterinário, uma fazenda, ou sacrificada, não importava.

“ Um pequeno acidente, no mínimo, curioso aconteceu na madrugada de hoje no pequeno município de (barulhos de carros passando). Durante a madrugada de hoje um carro foi atingido por uma vaca, que aparentemente havia caído do céu. O acidente resultou em nenhum morto e apenas um ferido. A polícia está investigando o caso. Acreditasse que...”

Ian desligou a televisão.
Não achariam explicação lógica para aquilo.
Virou-se para a sua mãe. Ela estava com os dois braços enfaixados, usava aquele típico avental de hospital. Estava dormindo como um anjo.
Ian começou a chorar.
- Me desculpe mãe! Eu vou consertar isso, eu prometo.
E saiu do quarto. Saiu do hospital e voltou para casa.
Na frente de sua casa não havia mais carro, ou repórteres, muito menos uma vaca. Apenas cacos de vidro. Cacos de um acidente absurdo que anunciava um absurdo ainda maior.
Entrou, ignorou o telefone tocando, e se dirigiu ao seu quarto.
Ligou o computador. Abriu o Conto VI.
Sem pensar duas vezes, o apagou, sem deixar qualquer vestígio ou vírgula. As dezenas páginas virtuais de desgraça repentinamente viraram apenas um parágrafo em branco.
Ainda teria de destruir o que estava com a sua professora.

Foi como se fosse um estilete. Ian gritou de dor pôs a direita na omoplata esquerda e caiu no chão de dor.
Era como se um estilete estivesse rasgando a sua carne. Gritava e tremia no chão de dor, e como ela veio ela se foi.
Ian não soube dizer se durou um minuto ou uma semana. A dor foi gigante.
- Mas o que está acontecendo? – Gritou para ninguém. Um ninguém chamado Dorian.
Nada respondeu.
Ian se levantou do chão de seu quarto. Sentiu suas costas formigarem. Uma dor leve espalhada por todo o seu corpo.
“Mas que diabos está acontecendo?” , pensou. 
Levantou-se e se dirigiu ao banheiro, tirou a camisa e tentou olhar suas costas no espelho.
Estacou.
O que era aquilo?
Formado em cicatrizes, como se tivessem sido algum ferimento de anos atrás, em suas costas, havia algo escrito.
Analisou bem e percebeu que era um número, de oito dígitos, com um palmo de extensão, na sua omoplata esquerda.
“Lá se foi a minha próxima tatuagem”, não pode deixar de pensar.
Analisou bem o número, e o decorou. O espelho refletia-o ao contrário, mas depois de alguns instantes conseguiu decorar o número. Então saiu e foi à sala.
Ele tinha certeza de que era um número de telefone, ele tinha certeza de que era Dorian quem atenderia ao telefone. Ele sabia disso, por que Dorian sabia disso.
Hesitou uns segundos na frente do telefone. Suas mãos estavam tremendo e suando, sua cabeça latejava. Agora ele tinha certeza de que a loucura havia o alcançado.
Ele iria ligar para um personagem de um de seus contos.
Sentiu-se como se estivesse flutuando. Divagando em um mar de loucura e medo.
Respirou fundo, pegou o telefone e discou.
“Foda-se” disse a si mesmo.
Cada sinal de chamada era mais um passo à loucura. Ian sabia.
Depois de quatro ou cinco toques
(ou quarenta ou cinqüenta?)
Alguém finalmente atendeu.
- Alô! – Disse uma voz feminina, e uma voz familiar. – Alô? Quem fala? 
- Alô! – Teve coragem de começar a falar. – Por favor, com que falo?
- Aqui é a Laís. Com quem falo?
Ian sentiu um misto de alívio e surpresa.
Laís era a diretora da escola onde ele havia estudado e onde estava fazendo cursinho. Ela o conhecia e Ian achava que ela gostava dele. Sempre fora um aluno dedicado, e tinha contato com a diretoria da escola. Ela o conhecia bem.
- Ah! Bom dia Dona Laís! Aqui é o Ian, da escola.
- Olá querido! Bom dia! Fiquei sabendo o que aconteceu à sua mãe! E como ela está?
- Bem, ela teve uns ossos quebrados, mas nada mais grave, graças à Deus!
- Que bom! Fico feliz em saber.
- Ela logo estará em casa e daqui um mês, no máximo, voltará a trabalhar.
- Muito feliz em saber meu anjo. Mas enfim, qual o motivo dessa ligação?
- Ah sim! Me desculpe incomodar, mas é que esse número estava anotado aqui em cima da mesa e pensei que era alguma coisa para mim, sinceras desculpas.
- Estranho. Mas bem, não é nada sério, ou é?
- Acho que era o número errado, ou eram anotações de minha mãe. Me desculpe novamente.
- Sem problemas. 
- Bem, então eu vou desligar.
- Tudo bem. Por favor, diga à sua mãe que perguntei por ela e que estimo melhoras.
- Considere avisado.
- Bom dia Ian!
- Tenha um bom dia!
E desligou.
Sentiu um misto de alívio, e confusão. O que estava acontecendo? Por que diabos Dorian queria que eu ligasse para a diretora da escola?
Por que diabos...
O telefone tocou novamente interrompendo o raciocínio e ele atendeu.
- Ian? – Era Melinda.
- Sim, sou eu.
- Meu Deus Ian, fiquei tão preocupado com você. Todos estão comentando na cidade.
- Está tudo bem, minha mãe não se feriu gravemente.
- Ah, que bom!
- Melinda... – Ele queria contar a ela tudo o que estava acontecendo. Mas não pelo telefone. – Poderíamos nos encontrar hoje?
- Claro Ian, eu quero te ver.
- Então, como faremos?
- Bem. Eu vou ao teatro municipal daqui a pouco pegar o meu violoncelo.
- Daqui quanto tempo?
- Depois do almoço.
- Eu estarei lá.
- Ian, estou de saída, almoçar com a mamis em um restaurante.
- Tudo bem. Lá pela uma e meia da tarde no Teatro?
- Fechado! Mas eu posso me atrasar um pouco.
- No problem my honey!
- Então até mais.
- Até mais meu anjo.
- Ian?
- Oi?
- Você aparenta estar bem humorado.
- Bem. Não é todo o dia que uma vaca cai no carro de sua mãe, não é?
Ambos sorriram.
- Até mais.
- Eu amo você.
E desligaram.
Ian tinha algo para fazer antes de se encontrar com Melinda. 
Precisava pegar a Via da Salvação com sua professora e destruí-lo. Iria pega-lo de destruí-lo junto de Melinda, por fim decidiu. Queria que ela tivesse uma participação significativa nessa história. Queria que Melinda fosse a sua Via da Salvação.

X – O Sapo e a Borboleta.
Ian foi direto à casa de sua professora de literatura. 
Tudo o que tinha de fazer era reaver o conto e destruí-lo. Não seria nada muito complicado.
Foi a pé, pensando nos dias doidos, e que eles terminariam ainda hoje. E de repente percebeu. Estava realmente bem humorado.
Tocou a campainha da casa dela. E depois de uns segundos a porta se abriu. Era ela.
- Olha que surpresa. Bem vindo Ian.
- Bom dia dona Tamires.
- Por favor, fora da escola, me chame só de Tamires.
- Tudo bem.
- Por favor, entre.
- Na verdade, estou com pressa. Eu só queria pegar uma coisa com a senhora.
- Imagino que seja o seu manuscrito.
- Exato. – Ela lhe poupara o trabalho de ter de explicar ou inventar uma desculpa.
- Claro, espere um minuto que vou pega-lo.
- Obrigado.
Ela entrou e Ian ficou esperando na porta. Tinha sido mais fácil do que ele poderia imaginar.
Depois de até menos de um minuto ela voltou com o conto.
- Aqui está Ian. E, meus parabéns. Ficou impressionante, você tem um talento natural para isso.
- Obrigado. – Adorava, como quase todas as pessoas, quando enchiam o seu ego.
- Gostaria de ler mais coisas de sua autoria.
- Sim claro. Será um prazer. Ainda mais por que esse aqui, não ficou lá essas coisas. E hoje de manhã decidi destruí-lo.
- Por quê? 
Ian se arrependeu de ter dito aquilo. Teria de inventar uma desculpa para a professora que ele tanto adorava.
- Digamos que eu desabafei demais em cima dele, e que isso me causou problemas.
- Tudo bem, eu entendo. – Finalmente entregou as mais de dez folhas nas mãos de Ian. Ele sentiu o peso que elas tinham. Sentia a vida dentro daquelas folhas. Sentia Dorian.
- Muito obrigado Tamires, e obrigado por ter lido.
- Foi um imenso prazer Ian. – Fez uma cara um pouco preocupada. – E me desculpe por te-lo usado como bloco de notas.
- Sem problemas, eu irei destruí-lo mesmo.
Ian olhou na capa do manuscrito. 
Via da Salvação, por Ian Tenrosse. 

E logo abaixo algo que o fez tremer dos pés à cabeça.

- Tamires, por favor. Esse não seria o telefone da dona Laís?
- É sim Ian.
- Ah, obrigado. Vou me indo.
- Tenha um bom dia Ian.

E ele seguiu caminhando imerso em pensamentos para o Teatro Municipal. 
Uma pequena anotação na capa do manuscrito havia feito um estrago gigante nas suas costas.
O que aconteceria se ele destruísse o conto? Será que seria destruído junto?
Dorian havia armado isso para cima dele. Aquele desgraçado queria garantir que iria permanecer com vida.

Chegou ao Teatro Municipal e sentou-se na calçada. 
Estava sentindo um ódio avassalador por Dorian, mas acima disso estava se sentindo um idiota. Havia criado um monstro, e um pesadelo para si mesmo.
De dentro do Teatro Municipal uma música começou a soar. Alguém estava tocando piano.
Ian se levantou e entrou no teatro.
As portas estavam estranhamente abertas. Mas havia umas pessoas trabalhando em alguma reforma do outro lado do mesmo. Parou de pensar sobre isso. 
A porta de entrava permitia uma visão das cadeiras onde o público sentava.  Observar aquilo vazio lhe trazia uma sensação de vazio, e uma sensação fantasmagoria, como se não estivesse sozinho.
E de fato, não estava.
Alguém no palco estava tocando piano. Era Claire de Lune, primeiro movimento. Ian era apaixonado por essa obra.
Sentou-se na primeira cadeira perto da porta enquanto esperava por Melinda. Ainda apreciando a música. 
No chão, perto de seus pés ainda havia um dos panfletos do pequeno recital onde fora assistir Melinda dias atrás. Pegou-o descompromissadamente e começou a folheá-lo.
O recital havia sido aberto com um quarteto de cordas tocando uma peça de um músico russo ou alemão que Ian nem imaginava como se pronunciava o nome. A peça seguinte foi à apresentação de Melinda. Ian se lembrou o que sentira naqueles momentos em que aquele anjo estava no palco, e como aquela apresentação havia sido mágica.
A peça seguinte era essa que ele estava ouvindo naquele exato momento. Ian não se lembrava de ter assistido. Depois se lembrou que havia saído antes mesmo dela começar.
Repentinamente estacou. Seu corpo gelou dos pés à cabeça. Sentiu ânsia de vômito.
Dorian.
Era Dorian quem estava atrás daquelas cortinas.
Foi Dorian quem a executou na íntegra, sozinho, naquela noite mágica.
“Como eu não percebi isso antes?”
O nome de Dorian estava lá, o tempo todo, naquele maldito panfleto. Não acompanhava nenhum sobrenome. 

Claire de Lune Sonata in Cm – Beethoven. Por Dorian.

Ian respirou. Tomou coragem e se levantou.
Do outro lado da cortina uma risada sinistra soou juntamente com a música. Ian se dirigiu ao palco e atravessou as cortinas.
E lá estava ele, sorrindo para Ian, sem interromper a música.

- Olá meu caro. – Dorian o cumprimentou.




 XI -... e o espelho quebrado.
Ian apenas fitava. O desgraçado estava bem na sua frente. Usava uma camisa branca e uma calça preta. Cabelos loiros e rebeldes, exatamente como Ian o imaginou. E aquele irritante sorriso no rosto.
Tocava com uma naturalidade e facilidade assustadora. A música era lenta e não exigia muito de quem a executava, mas o modo como ele fazia era mágico, assustador.
Terminou o primeiro movimento e começou o segundo sem interromper a execução e finalmente se pôs a falar:
- Por que está me olhando dessa forma?
- O que você quer de mim?
- De você? – E começou a rir. Alto, em tom de deboche. – Meu caro Ian, o que eu poderia esperar de você?
- Por que está fazendo isso comigo?
Dorian bateu uma nota dissonante e sem acordo nenhum com a música.
- Por que VOCÊ está fazendo isso comigo? – Gritou a palavra “você”.
- Eu não estou entendendo.
- Isso não me surpreende. 
- Dorian, por favor, apenas saia de minha vida.
- Assim que você sair da minha.
- Pelo amor de Deus, o que eu estou fazendo? – Ian colocou a mão que não segurava o conto em sua barriga. Seu estômago doía. – VOCÊ É APENAS MINHA IMAGINAÇÃO! - Gritou.
- E VOCÊ É APENAS MINHA IMAGINAÇÃO! - Ele gritou de volta.
- Por que você está aqui?
- Por que você me criou?
Dorian era só um personagem de sua cabeça, era apenas algo que Ian usou para desabafar as desgraças de sua vida. Não era uma pessoa.
- Você não existe.
- Acho que essa conversa prova o contrário.
- Você quer o conto? É seu! Tome, leve!
- E o que eu faria com esse lixo de segunda categoria?
- Então me conte. Por que você está aqui?
- Apenas me cansei de ser usado por um tolo. Cansei de ser um complemento de sua vidinha miserável e cansei de sentir a sua dor, cada instante de minha vida.
- Você quer que eu o reescreva? Tudo bem, eu faço! Mas suma daqui.
- Meu nome, minha aparência, meus parentes, minha pequena Samara. Todos baseados em pessoas medíocres de sua vida. Eu tenho nojo de você meu caro. E quero você fora de minha vida.
- Eu você é apenas uma imagem minha. Algo que eu criei.
- Um aperfeiçoamento de sua mente doentia. Eu sou sua dor.
Ian estacou. Havia se enganado por um bom tempo até assumir, e quando assumiu á si mesmo, nunca mais retornará a pensar nisso.
O nome de Dorian havia saído do livro de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”. Isso era o que ele dizia às pessoas. Mas ele apenas havia criado o nome de acordo com o sentimento do conto.
Dorian. A Dor de Ian.
- Dor Ian, apenas dor. – Dorian disse. – Você não imagina pelo que você me fez passar.
- Quer se vingar?
- Não Ian, eu não quero nada de você. Apenas pegue esse conto e jogue no lixo. Inteiro, como ele está.
- Mas você continuará existindo.
- Essa é minha intenção.
- E todas aquelas coisas horríveis irão acontecer comigo.
- Aconteceram comigo.
Ian deu um passo para trás. Dorian começou o terceiro movimento.
Seus dedos se mexiam com técnica e perfeição únicas. Aquele movimento era rápido e exigia uma técnica avançada. Mas Dorian estava executando-a com uma facilidade assustadora.
- Me desculpe. - Ian disse.
- Sua culpa me diverte. Agora você sabe o que fazer. Apenas me deixe viver.
- Me desculpe novamente. Mas não posso.
Dorian pareceu estar levemente irritado. Ian continuou.
- Isso deve terminar aqui. – Ia completou. Dorian apenas fechou os olhos. Estava visivelmente irritado, e concentrado na execução da música.
Um momento depois sorriu e abriu os olhos.
- Muito bem Ian. Que assim seja. Destrua-o. Mas saiba que eu não serei o único que você levará. – Ian sabia que havia esses “poréns”. Mas ouvir isso de Dorian era saber que iria morrer. Depois pensou que seria melhor morrer do que viver carregando a culpa das desgraças que viriam a seguir. 
- Agüento as responsabilidades. – Ian sorriu, havia pegado ele.
Dorian parou a execução. Interrompeu-a sem terminar. Virou-se para Ian com aquele sorriso irritante e provocativo.
- Não estou falando de você.
Um barulho atrás de Ian chamou-o atenção e ele se virou. Era Melinda, estava carregando o estojo de seu violoncelo olhando assustada para Ian.
Ele se virou para o piano novamente, mas não havia nada lá. Dorian havia sumido.
- Ian? Você está bem? – Ela perguntou.
- Não muito. – Disse distraído e apático. – Vamos embora daqui.
- Claro.
E saíram juntos do teatro pela segunda vez.

XII – Luz do dia, dia de escuridão.
Ian estava calado e com uma expressão sofrida. Melinda estava preocupada com ele. Estava monossilábico. 
Ele não sabia o que fazer. As ameaças de Dorian não foram claras o suficiente, mas ele temia por Melinda.
Foi uma caminhada quieta longa para a casa de Ian. O clima estava pesado.
- Me desculpe! – Disse Ian em certo momento durante a caminhada.
Melinda não entendeu, mas não queria prolongar o assunto. Nada disse.
Foram até a casa de Ian. Ao entrar na sala o telefone tocou. Ian se aproximou dele e com um movimento rude, puxou-o da linha e o desligou.
- Ian, o que está acontecendo? – Melinda finalmente perguntou.
- Não é nada. Eu só não estou bem.
- Essa é a confiança que você põe em mim?
- Me desculpe!
- PARE DE PEDIR DESCULPAS! – Ela gritou. Ian se assustou. Não esperava uma reação dessas de Melinda.
- Eu... – Não conseguiu terminar.
Melinda o fez sentar no sofá de três lugares vermelho da sala e se sentou ao lado dele.
- Ian, olhe só para a sua cara. Nunca te vi com uma expressão tão sofrida.
Ele não respondeu nada. Não sabia o que dizer para ela. Deveria contar tudo? 
Em algum ponto no inconsciente dele, sabia que não deveria jamais tocar no assunto com ela, mas suas emoções estúpidas estavam tomando conta naquele momento.
Ela merecia saber. Ela precisava saber.
Ele se virou para ela. Melinda estava com os olhos brilhantes. Ele voltou a olhar para o chão e apoiou a cabeça nas mãos.
- Melinda. – Finalmente começou a falar. – Eu nunca mais quero me separar de você. Você tem sido tudo para mim esses últimos tempos. Você tem sido a luz do meu dia. Uma razão para continuar. – Começou a chorar. – Mas nesses tempos eu tenho de lidar com essas coisas estranhas que vêm acontecendo. E não sei o que fazer.
- Ian... 
- Então cada desastre que acontecer em minha vida será culpa minha. Eu simplesmente não agüentaria. – Abraçou-a. – Eu não agüentaria sozinho. Por favor, fique comigo Samara.
- Ian. Você está confuso.
- Eu sei disso.
- Ah, Ian, me dói tanto te ver assim.
Nesse exato momento ele soube o que fazer. Não importava o que acontecesse, deveria manter aquela pessoa ao seu lado. Mas não poderia deixar Dorian controlar cada faceta de sua vida.
- Mel. Tem uma coisa que eu quero que você faça comigo.
- Tudo para te ajudar.
Ela estava na cozinha, ele tinha ido ao mercado comprar algo para eles tomarem. E, contrariando suas próprias limitações, pegou uma garrafa de vinho. Quando ele entrou em casa sentiu o cheiro delicioso do que ela estava preparando na cozinha. Colocou o vinho sobre a mesa e se dirigiu à cozinha.
Andou até ela e sorriu. Um sorriso doce, mas com uma pequena sombra de tristeza. Ela estava usando o avental que a sua mãe usava para cozinhar. Ficava com uma aparência caseira extremamente agradável.
- Mel, você daria uma boa mãe. – Ian disse. Como ela estava linda.
- Seu bobo. – Ela tinha ficado com vergonha.

Sentaram-se à mesa. Já haviam conversado sobre o absurdo que havia acontecido à sua mãe, sobre a família de Melinda, e sobre outros pequenos assuntos diversos.
Ela havia preparado uma espécie de frango com um molho esquisito mas delicioso.
Brindaram, comerem, beberam, se divertiram.
Acabaram novamente nus deitados no chão da cozinha.
Ian estava sorrindo, para o alívio de Melinda. E depois de alguns segundos deitados naquele chão frio ele se levantou
- Vamos? – Ele perguntou, animado.
- Sim.

Vestiram-se e saíram.
Iriam para o parque próximo e lá o fariam, juntos.
Caminharam de mãos dadas sob as luzes amareladas dos postes. Ian novamente havia se afundado em pensamentos sobre o que aconteceria a seguir, mas dessa vez, tinha certeza de vitória. 
Sentia a mão quente de Melinda suada em suas mãos.
Aquele calor, aquele carinho, nada disso poderia ser ilusão. Era hora de acabar com tudo isso.
Entraram no parque e Ian parou na primeira árvore que viu. Ela era grande e durante o dia daria uma bela sombra. Agora de noite, ela tinha um aspecto assustador.
- Foi aqui. Fazer acabar com isso aqui.
- Tudo bem. – Ela sorriu para ele. Ela sabia que ele precisava de alguma força para isso.
Ian pegou as dez folhas que compunham o que restou da Via da Salvação e jogou no chão. Melinda abriu sua bolsa e tirou o fluido de isqueiro e passou para Ian.
Ele lentamente jogou sobre as folhas. Enquanto a folha se umedecia e o fluido penetrava, as letras borravam. Já estava destruindo Dorian.
Não sentiu dor nenhuma, e nenhuma sensação esquisita.
Ele se ajoelhou.
- Melinda, me desculpe por ter de participar disso, que mais está parecendo um ritual satânico.
Ela deu risada.
- Está tudo bem.
“Você está fazendo uma idiotice.”, pensou. A voz em sua cabeça não era dele, era de Dorian.
“Cale a boca, isso logo estará acabado, não sei se só para você, ou para nós dois. Mas logo estará acabado.”, Ian
  “Você não entendeu nada.”, Dorian.
Ian pegou a caixa de fósforos.
“Talvez não, mas isso logo estará acabado”, Ian.
“Que assim seja, idiota. Mas saiba que o que acontecerá aqui, não será comigo e com você. Você é real.”, Dorian.
“...”, Ian
“Você acha que uma garota linda dessas iria se interessar por você do nada?”, Dorian.
“O que você quer dizer?”. Ian.
“...” Dorian.
Ele havia se calado.
Ian ficou com medo. Havia entendido perfeitamente o que ele havia dito.
E lá, ajoelhado sobre os papéis que deveriam queimar. Com um fósforo em uma mãe e a caixa em outra, a um passo de terminar tudo isso, travou.
- Ian? – Melinda perguntou.
No fundo ele sempre soube que Melinda era perfeita demais para ele. No fundo ele sabia que ela era muito idealizada para ser verdade. No fundo ele estava chorando.
Sempre soube que momentos de felicidade acabavam. Que uma hora os sorrisos acabavam e a tristeza voltava. Que o único sentimento constante era o vazio.
Aquilo deveria ser feito.
- Melinda.
- O que foi? 
- Você tem sido tudo para mim. Eu amo você, sinceramente.
- Eu também te amo.
- Você tem sido minha luz do dia. – Ian riscou o fósforo. – Mas hoje é um dia de escuridão. – E jogou-o sobre as folhas.
Levantou-se e abraçou-a. Sentiu o calor dela em seus braços. O amor que ele havia criado. Todo o carinho. A pequena história de poucos dias que haviam criados juntos. Aquilo não poderia desaparecer.
Ela o abraçou de volta. Apertado. Nunca mais queriam se separar. 
Ao lado deles as folhas queimavam e deixavam de existir. Palavras se tornavam cinzas. Ilusões se tornavam cinzas. Destinos se tornavam cinzas.
- Nós andamos esse caminho todo. – Melinda começou a dizer ao ouvido de Ian. – Andamos e pensamos em seguir em frente. Encarar a dor, superar os fatos. São coisas que as pessoas dizem para nós. Mas todos nós sabemos a dor que é existir.
”Nós caminhamos sobre este chão, sem a certeza da cada passo. Olhamos o dia se tornar noite. Choramos, caímos, levantamos, assim como todos fazem. Uma tentativa inútil de nos tornarmos felizes a cada dia. Você tenta, você falha, você cai, você sangra, você quebra. E dia após dia tem de se levantar como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. E você tem de sorrir, você tem de mentir, você deve alimentar as esperanças das outras pessoas com um sorriso no rosto, mesmo sabendo que a sua dor é exatamente a mesma das outras pessoas.
E uma hora você pára e pensa. Procura uma oportunidade de ficar sozinho onde ninguém pode te ver e chora. Continua não sabendo o significado disso tudo, das coisas à sua volta. Perde o significado das pessoas, e acaba se perdendo junto.
E sabe, isso é triste.
Gostaríamos de um sinal de que não estamos sozinhos. Procuramos insaciavelmente um mero sinal de que não estamos sozinhos. Um sinal de que não chegamos ao nosso triste miserável fim...” 

A cada palavra que ela dizia o calor em seu corpo ia sumindo. Como se cada emoção dela tivesse sido posta em suas palavras.
Ian em um momento qualquer da narração se pôs a chorar.
Era um dia de escuridão.
O dia quente em seus braços estava se tornando cada vez mais frio, e cada vez mais leve.
Quando ela finalmente se calou, Ian não sentia mais nada. Estava com os braços cruzados em si mesmo ajoelhado no chão.
No chão havia apenas cinzas.
Ele abriu os olhos e ela não estava mais lá. Nenhum vestígio.
Levantou-se e voltou de cabeça baixa para casa.

XIII – Outro.
Ian chegou à sua casa.
Haviam deixado à televisão ligada, uma mulher estava comentando sobre o caso de sua mãe novamente.
“A polícia descobriu hoje de manhã a origem do pequeno acidente que aconteceu na madrugada de ontem.
Aparentemente a vaca que supostamente havia caído do céu, na verdade caiu de um avião de transporte.
O animal caiu do avião durante o transporte e acertou um carro.
Ambos, o animal e a pessoa que foi atingida estão bem, com leves ferimentos.
Estou aqui com um veterinário que...”

Ian desligou a televisão.
Deitou-se no seu quarto e resolveu não pensar em nada. Apenas desaparecer.

Depois de uns minutos se levantou, sentou-se ao computador, abriu a Via da Salvação, e apenas escreveu.

“Dorian e Samara foram felizes juntos, por muito tempo.”

Não esperava que nada acontecesse. Apenas sentiu que devia isso a ele.
Deitou-se e dormiu.

Autor: João Kauê Aguena Guirro. Para saber mais sobre o autor, conheça seu blog (aqui!).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Especial de Halloween: Conto VI - parte 2

Demorou, mas a segunda parte do Conto VI já está no ar. Se você ainda não leu a primeira parte (tá esperando o que??) clica aqui! 


IV – Paranóia
Ian releu o conto inteiro, não antes de jogar a pizza no lixo, eram trinta e oito páginas. Trinta e oito páginas de desgraça, descrições detalhadas de momentos introspectivos de Dorian, momentos doces com Samara, e genialmente colocado, pequenos fatos que aconteciam nos contos da edição anterior do concurso. Marido morre um dia após morte da mulher, criminoso que havia estuprado a própria filha, morto em posto de gasolina, rumores de lobisomem solto nas florestas, um assassino em série vestido de palhaço, e até mesmo um qualquer da vida havia sido engolido por uma cobra, mas só. 
As poucas coisas que aconteceram no conto, haviam acontecido de verdade na vida de Ian. Na de Ian antes da de Dorian. Na de Ian antes da de Dorian até aquela manhã. 
A Via da Salvação, era, na verdade um desabafo de Ian sobre a sua própria vida, mas no conto, ele resolveu só colocar as desgraças e coisas tristes, e um motivo chamado Samara para sair daquele buraco. Era um conto de auto-ajuda. 
Mas os buracos que Ian colocou na vida de Dorian eram doloridos demais. Parentes com câncer, presenciou o próprio pai ser esfaqueado por trombadinhas, mas sair vivo, numa cadeira de rodas, e uma amiga sendo atropelada por um ônibus na sua frente. O sangue espirrava em Dorian. Era a parte mais sanguinolenta do conto, mas a que Ian mais gostou de escrever, a amiga era sua ex namorada, e foi prazeroso mata-la.
Os acontecimentos eram todos, pelo menos em parte, reais. O pai de Ian cairá de moto meses atrás, ficaram de cadeira de rodas algumas semanas, mas já estava recuperado. A sua tia havia ganhado na loteria para curar o câncer. E seu primo também. Nem conseguia definir qual aconteceu primeiro naquele momento. Ou se era a tia dele, ou primo de Dorian. Estava confuso. 
A idéia inicial que passou pela sua cabeça, que depois de uma briga violenta, Ian conseguiu enfiar dentro da privada, sentado em cima, e dado descarga, começou novamente a aparecer em sua mente.
Começou a rir de si mesmo. Como era bobagem. Não havia possibilidades, nenhuma, nenhuma mesmo de “isso” estar acontecendo.
Não mesmo?
Ian parou de sorrir. Era ilógico demais aquilo estar acontecendo. Mas, por um curto espaço de tempo, entre o espelho e o lixo do banheiro, pensou que poderia estar acontecendo em sua vida, tudo que acontecia no conto.
A idéia era muito ilógica para ser levada a sério. “Mas daria um conto fantástico” pensou. Ainda sentia algo gelado em suas costas, e aquilo era atormentador. Estava sentindo como se estivesse dentro de uma das histórias que ele próprio escrevia. “Então, só tenho uma semana de vida?” pensou e riu. 
A idéia que era horripilante, engraçada, cômica de tão ilógica, assustadora, surreal, e mais inúmeros adjetivos que Ian não conseguiu encontrar. 
Agora, ele nem sabia mais o que havia acontecido primeiro. Quem havia ganhado na loteria, quem estava com câncer, o pai de quem está vivo, quem era Samara, que era Melin... 
O telefone tocou interrompendo a linha de pensamentos ilógicos de Ian. E como se tivesse despertado de um sonho, saiu e foi à sala. Sua mãe não estava lá, devia ser mais de meio dia. A hora que ela geralmente ia trabalhar. O telefone ficava ao lado da televisão. Esse telefone, o único que Ian atendia. Havia o sem fio no quarto de sua mãe. Mas Ian não gostava dele, a bateria teimava em acabar rápido. Percebeu que demorara demais em atender ao telefone e correu atente-lo. Deu tempo. 
- Alô?
- O senhor acaba de ser premiado com toda a coleção Stephen King da Objetiva, por favor, deixar seu nome e telefone para contado – Uma voz feminina anunciou rapidamente.
- Hã? – Ian ficou muito confuso por uns segundos. 
- Ian? Sou eu, a Melinda. Bom dia! – Estava sorrindo, Ian podia perceber do outro lado da linha.
- Olá Mel. Bom dia... – Pausa – Alias, que horas são?
- Onze e alguma coisa. Acordou agora? 
- Sim. – E agora um pouco mais descontraído. – Nossa, como é bom acordar com a sua voz.
- Ai. Assim você me deixa com vergonha. – Ambos riram.
Melinda conseguiu parar de rir primeiro:
- Ian, vou direto ao assunto. – Disse, em um tom mais sério.
- Sim, claro. – Disfarçou, mas ficou receoso pelo que viria a seguir.
- Você, aqui em casa, hoje de noite, traga um violino. – Ela estava dando uma ordem.
- O que? 
- Jantar em família, que são um porre, e geralmente eu fico tocando violoncelo para aquele bando de parentes, mas eu deixei o meu no teatro, dai eu pensei em fazer-mos um dueto. O que acha?
Ian não conseguiu pensar em música naquele momento. Melinda estava chamando-o para conhecer a família. Haviam se beijado pela primeira vez ontem, e ela já estava chamando-o para conhecer a família. 
- Ian? Você está ai?
- Sim, claro. – Dei uma risadinha leve e envergonhada. – E por ventura vossa excelência, que horas este humilde servo poderia comparecer em vossa residência? – Um tom de brincadeira extremamente descontraído.
- Geralmente esses jantares começam as oito, venha umas sete horas. Tudo bem para você?
- Claro.
- Então, até de noite?
- Até.
Um pequeno silêncio.
- Ian? – quase um sussurro do outro lado da linha.
- Oi? 
- Eu amo você. – E desligou o telefone.
Ian ficou com o telefone colado à orelha por uns momentos, parado. Pensou em todas as coisas que haviam acontecido com ele, e chegou à conclusão de que Melinda foi a melhor, com certeza.
Sua ex namorada era uma modelo, era um ano mais nova, e um tipo de menina que com certeza não era para ele. Ela dava valor para coisas que Ian simplesmente ignorava. Ian não se importava com a roupa de marca que ela vestia, com o carro que o pai dela possuía. Não sabia os nomes das atrizes do horário nobre que ela tanto idolatrava. Não se importava com ela, principalmente. Mas ela era linda. E agora, principalmente, como Melinda era diferente.
Melinda dissera que era onze e alguma coisa, então a mãe dele ainda deveria estar em casa. Ian colocou o telefone no gancho e dirigiu-se para o quarto de sua mãe. Ela estava dormindo. Iria se atrasar para o trabalho.
- Mãe, acorde! – Disse dando uma pequena chacoalhada nela pelos ombros.
Ela se assustou, arregalou os olhos.
- Nossa! Que horas são?
- Quase meio dia, mãe.
- Ah, hoje só tenho paciente a uma da tarde, dá tempo.
- Que bom! – Ian de repente se lembrou de toda a loucura do conto VI. E resolveu que era a hora de tirar as dúvidas de algumas coisas, e a mãe dele era a única forma disso. – Mãe, quando a tia Bel pegou câncer e ganhou na loteria? Você lembra se foi antes ou depois de eu escrever no meu conto maldito lá, o do Dorian? 
- Ah filho, eu lembro, lembro até que comentamos sobre isso, você escreveu depois. Você me perguntou se eu me importaria se você colocasse desgraças que aconteceram de verdade, lembra?
- Ah, é verdade. – O alívio que ele sentiu nesse momento era indescritível. As mãos de Dorian que havia sentido pela manhã foram arremessadas a quilômetros de distância. Foram decepadas, colocadas em um cofre, e jogadas dentro do rio São Francisco. 
Ele se levantou aliviado e foi sair do quarto.
- Mas Ian... – Sua mãe interrompeu-o antes dele sair. – Foi seu primo, o filho da tia Bel, que teve câncer. 
Ian apenas suspirou. As coisas estavam ficando realmente confusas.
Sentou-se na frente do computador.
Releu o conto, uma, duas, três vezes. Havia criado um monstrinho. Ian não gostava de sua ex namorada, mas não queria vê-la sendo atropelada na sua frente. 
(não mesmo?)
E principalmente, não queria ver de forma alguma Samara com outro homem. Nunca. Melinda entrou na vida dele como sempre tivesse sido.
Apoiou a cabeça nos braços e ficou fitando o teclado do computador. Havia um modo de saber se tudo aquilo era verdade? Se estava ficando doido? Se estava...
Ian se arrepiou.
...controlando o seu destino?
Havia. Teve uma idéia brilhante. Escolheu um ponto qualquer do conto e escreveu. Aquilo acabaria amanhã de noite.
V – Dueto
Ao contrário do que Ian imaginava, Melinda queria o violino para ela, e Ian se dirigiu ao piano. Ian chegou no horário exato, estava com calça jeans e uma camisa preta, sem óculos.
- Não preciso de óculos para comer nem para tocar. – Disse à Melinda.
Ian pediu a ela para lhe apresentar como um amigo, e assim foi feito, sem constrangimentos para ele. A família dela era legal. Havia umas oito pessoas lá. A mãe dela era ela mais velha, exatamente igual. Um tio doidão que ficou bêbado em meia hora. Uns idosos que ele achou que eram os avós, e só.
Com tom de brincadeira, a ponta da mesa foi ocupada com uma foto do pai dela, que estava na Europa. Idéia do tio bêbado.
Ian novamente decidiu não tomar nada alcoólico, e nenhum refrigerante, ficou a base de suco, achou que seria mais polido de sua parte, mas chegou um momento que todos na mesa, com exceção dele, estava bêbados. A família dela era muito engraçada. Certo momento, o tio bêbado virou-se para Ian e disse:
- Vendo assim, nem parece que eu sou traficante, e que aqueles dois. – Apontou para os avós. – São usuários de heroína.
Ian se assustou, mas não teve nenhuma reação, apenas arregalou os olhos. Após um momento de silêncio todos caíram na risada. A família dela era demais.
Depois do jantar se reuniram na sala, jogaram conversa fora. E para a surpresa até dele mesmo, participou vivamente da conversa. Contou sobre os planos para faculdade, sobre a ex namorada (que o Tio Bêbado fez questão de perguntar o telefone), e sobre o acidente de seu pai.
Chegada à hora da apresentação, Ian pegou o “case” do violino abriu e tirou ele de lá. Melinda tirou-o das mãos dele.
- Você, piano. – Disse apontando para ele. – Mim, violino. – Disse com a mão apontando para seu próprio peito. Ian ficou uns segundos olhando para o decote do vestido dela. O que não passou despercebido por ela.
Ian sentou-se ao piano. Melinda ficou de pé ao lado dele.
- Algum pedido? – Ela perguntou.
Silêncio.
- Então solte o som dj.
Silêncio.
Ela se voltou para Ian. Ele estava olhando para ela, e só faltava uma interrogação pintada na cara dele para deixar mais explícito o que se passava. Melinda havia entendido perfeitamente que ele não sabia o que começar.
- Improvise. – Disse a ele. 
Então ele começou. Apenas arpeggiou uns acordes e repetiu um padrão. Melinda pegou o tom, e começou a improvisar em cima. 
Todos na sala ficaram boquiabertos com a química que rolava entre eles. Ficaram maravilhados, era um belo casal. 
O Tio Bêbado dormiu com menos de cinco minutos de apresentação. Mas o resto estava maravilhado com aquilo.
Ian, naquele exato momento começou a pensar nas coisas doidas que vinham acontecendo, nas coisas doidas que iam acontecer, e como, em apenas três dias sua vida mudará. Ele estava no meio de uma família muito bacana, e com a garota mais bela, inteligente, graciosa e perfeita de todo o mundo. Aquilo não poderia, nunca, ser invenção.
Melinda fez um sinal para ele terminar, e então ambos o fizeram, juntos, em perfeita harmonia. 
A família dela aplaudiu. O cumprimentaram, e rolou comentários sobre proposta de casamento com Melinda, comentários bobos de pessoas ébrias, mas que conseguiram deixa-lo  envergonhado. 
Ficaram jogando conversa fora até meia noite, o Tio Bêbado já havia ido embora quando a mãe de Melinda se aproximou dos dois e disse:
- Vou levar meus pais embora. Ian, por favor, fique em casa e cuide de Mel até a minha volta. 
- Claro, sem problemas. – Respondeu.
Antes de ela sair de perto dos dois deu uma piscadinha para Melinda, que sorriu de volta. Ambos os gestos passaram despercebido por Ian.
Eles ficaram completamente a sós na casa dela. Ian disfarçou o nervosismo brincando com o piano.
- Toque alguma coisa para mim, por favor. – Melinda pediu.
- Minha arma secreta. – E começou a tocar algo que Melinda identificou como sendo o terceiro movimento de Claire de Lune. Era uma peça rápida e de difícil execução.
Ela se levantou da cadeira onde estava e se aproximou de Ian.
O piano de cauda estava aberto. Ela do lado oposto das teclas e de Ian, fechou a tampa com cuidado para não atrapalhar a execução dele. Apoiou as mãos em cima da tampa e em um movimento subiu em cima do piano. E começou à engatinhar para Ian.
Ele ficou boquiaberto e a música parou.
- Continue. Se você parar, eu também paro. – Disse Melinda com um ar pervertido.
- Vou trocar de música. – E começou a tocar Por Elise, a famosa música do caminhão de gás.
E cada um começou a sua performance novamente. Ela engatinho de quatro para Ian bem lentamente, ele apenas observava cada simples movimento que ela fazia. 
Ela se aproximou dele e enfiou os seios em sua cara. Ele não parou a música e nem vacilou momento algum. Ela jogou os braços para trás, se apoiou, abriu as pernas, colocou cada perna de um lado de Ian, e puxou a barra do vestido até a cintura.
Ian, numa situação normal, apenas reagiria, mas nessa situação, nem reagir conseguia.
Ela puxou-o pelo pescoço para entre suas pernas.
E ele respondeu à altura, mas em nenhum momento parou de tocar.

VI – Sinceridade para você
Acordou com o rosto queimando. Havia se deitado com a janela aberta, o sol nasceu direto em seu rosto, nem pensou em ligar o computador, nem em conto nenhum. Ficou uns minutos deitado se lembrando da noite de ontem. Tudo havia sido perfeito demais para ser verdade.
Algo apertou seu peito.
“Para ser verdade”
Não estava gostando nem um pouco da maneira como estava encarando os fatos. E principalmente, não estava gostando nem um pouco da maneira de como uma idéia ilógica e fantasiosa havia se tornado uma ameaça para si mesmo. 
Observou o horário no seu despertador, eram oito e meia da manhã. Ainda haveria tempo para se encontrar com Melinda, iriam juntos ao teatro municipal pegar o violoncelo. Mas isso era plano para depois do meio dia. 
Levantou-se, tomou um café e se pôs a assistir televisão, havia meses que ele não se dedicava à alienação imposta pela máquina de fazer bobos, mas achou que uma dose não o mataria, afinal havia tantos alienados vivos por ai. 
Não viu às horas passarem. Adormeceu novamente. Sonhou que estava jogando xadrez com Dorian. E que ele estava perdendo. Quando acordou sua mãe já havia saído para trabalhar, era mais de uma da tarde.
O telefone tocou.
E sem nenhuma pressa ele foi atendê-lo.
- Alô? Ian? – Era uma voz feminina, muito bem conhecida por ele.
- Nathália? O que foi? – Uma ligação de sua ex namorada era a última coisa que ele pensou que teria de aturar depois de todos os ocorridos.
- Ian, você está bem?
- Sim, tudo bem, e com você? – “Por que diabos ela está enrolando?” Pensou.
- É, não. – Fez uma pausa de alguns segundos, e depois suspirou. “Ai vem merda” Passou pela cabeça de Ian. – Ian. Eu gostaria de conversar com alguém, e não tenho ninguém para conversar, não tenho mais amigas, não há ninguém em quem eu possa confiar. Eu preciso de alguém para conversar.
Ian sabia do que ela estava falando. Não exatamente, mas eram aqueles problemas idiotas que ele não dava à mínima. E também sabia o motivo dela não ter ninguém para conversar. Ela era uma pessoa falsa, cínica e manipuladora, até mesmo com as amigas dela, o resultado era essa conversa que ele estava tendo agora.
- E sua última opção foi me ligar. – Estava muito nervoso. – Que gratidão de sua parte.
Ela começou a chorar.
- Ian, você não entende mesmo! – E em seguida veio o grito. – EU ESTOU SOZINHA!
Ele não queria estar tendo aquela conversa. Sabia que Nathália não era exatamente uma boa pessoa, e tinha um temperamento difícil de lidar. Mas ficar ouvindo gritos de uma patricinha histérica estava fora de cogitação para ele.
- Eu te avisei. Não uma, nem duas, mas muitas vezes, que suas atitudes iriam ter conseqüências. Agora, pelo menos agora. Aja como uma pessoa adulta e enfrente-as sozinha.
- Ian, por favor...
- Nathália, essa conversa acabou! – E desligou o telefone.
Menina cretina.
De repente passou pela sua cabeça os momentos bons que passou com ela. Mas isso trazia consigo os momentos ruins, as várias vezes em que ele teve de ficar calado, e os vários conselhos que ele dera e que foram ignorados. Desejou, sinceramente, que aquela pessoa fosse atropelada, na sua frente.
- Estou ficando perturbado. – Disse à si mesmo.
A campainha tocou.
Não estava esperando visitas, e nem estava com paciência de aturar qualquer cobrança, isso era trabalho para sua mãe. Foi à janela da sala e observou lá fora. Não havia ninguém.
“Crianças”, pensou. E começou uma caminha para seu quarto.
A campainha tocou novamente.
- Não estou a fim de agüentar essas brincadeiras de criança. – Gritou de dentro de sua casa.
- Tudo bem! Volto em outra hora. – Anunciou uma voz feminina que Ian já estava muito bem familiarizado.
Correu para frente da casa, ainda à tempo de ver Melinda passando pelo portão da frente, rumo à casa dela.
- Mel, espere! 
Ela se virou, estava séria.
- Me desculpe, pensei que eram crianças, aquela brincadeira de tocar a campinha e sair correndo.
- Ah! – Sorriu de volta para ele. – Tudo bem. Eu me escondi de propósito mesmo. 
- Me desculpe!
- Tudo bem, eu já disse!
- Vamos, o que está esperando? Entre.
Caminhou Melinda até a sala da frente. Ela se sentou numa ponta de um sofá vermelho de três lugares, à frente da televisão. Observou a sala. Não tinha muito a cara de Ian.
- São coisas de minha mãe! – Ele disse, como se estivesse lendo a mente dela.
Um tapete pendurado como se fosse um quadro, com um elefante rosa com formas humanóides, e umas suásticas. Cheiro de incenso. Mensageiro dos ventos nas duas saídas da sala. Nunca esperara aquilo de Ian. Com certeza eram coisas da mãe dele.
- Percebesse. – E deu uma risadinha.
Quando os olhos dela se voltaram para Ian percebeu que este estava olhando para baixo, estava aparentemente desanimado com algo.
- Ian. Você está bem? 
- Sendo curto e grosso. – Fez uma pausa. – Não! – E sentou-se ao lado dela.
- O que foi que aconteceu?
- Ah, Mel, por favor, entenda, eu não quero falar sobre isso!
- Tudo bem.
Um silêncio perturbador caiu sobre eles. Ambos não estavam se olhando, estavam encarando o chão branco da sala. Não estavam se comunicando de nenhuma forma perceptível, mas ambos sabiam o que o outro estava pensando.
- Tudo bem, eu conto. – Ele disse, repentinamente. E contou sobre a ligação de Nathália.
- Ela não me parece ser uma pessoa ao seu estilo. – Ela disse após ouvir a narração de Ian.
- E não é mesmo. Eu nem sei como fiquei tanto tempo com ela, ou como fui me envolver com uma pessoa assim.
- É, esse tipo de desculpa não funciona comigo. Você sabe sim os motivos que o levaram a se relacionar com ela. – Melinda disse, de uma forma dura e doce, ao mesmo tempo.
Ian ficou pensando um tempo e chegou à conclusão de que não adiantava simplesmente não dizer nada a ela. Não adiantava simplesmente omitir os fatos que o perturbavam.
- Eu me sinto culpado. Eu poderia ter feito alguma coisa por ela, mas não fiz. E ela está sofrendo agora. De uma forma bem indireta, a culpa é minha.
- Não se culpe. 
- Sabe, ela é uma modelo, jovem, bonita, aquele tipo de menina que os homens realmente desejam. Mas, é só. – Respirou, apertou os olhos e começou a chorar. – E eu, fui um babaca, um completo idiota ao ir atrás dela. Para mim, ela não era uma pessoa. Não era algo vivo. Era mais como se fosse um troféu. Algo para se olhar e apreciar, como uma pintura, ou uma escultura. Escutar as idéias dela, os sentimentos dela, era uma tortura para mim. Eu simplesmente não agüentava aquela situação. 
- Ian...
- Não era uma namorada, não era uma pessoa. Era apenas algo em minha vida. Eu a usei e não pude fazer nada por ela. Nada.
Melinda o abraçou, ele apenas deixou-se envolver. Ela sentia a culpa dele, e queria confortá-lo, queria envolvê-lo.
- Mas, Mel... Com você é diferente. Eu amo você. – Melinda se arrepiou. - Eu quero saber de suas idéias, pensamentos, sentimentos, mesmo quando você estiver em meus braços.
- E você se culpa por isso?
- Eu não sei. Eu apenas não quero te perder, e não quero te tratar como acabei tratando ela. Eu...
Melinda não o deixou terminar a frase. O beijo, com intensidade e paixão. Sentiu o gosto salgado das lágrimas dele. Depois de um pequeno momento ele se deixou levar. Sentiram um a língua do outro. Sentiram um, a emoção do outro. Se sentiram por uns momentos, toda a culpa e ódio, mas também todo o carinho e amor que um sentia pelo outro.
Terminaram nus deitados no chão da sala. Ela com a cabeça sobre o peito dele.
- Obrigado por estar comigo. – Ian disse. Sem acrescentar mais nada, não era preciso.
Melinda apenas sorriu. 
- Ian. Posso te fazer uma pergunta?
- Sempre, claro!
- O que essa sua tatuagem?
Ian sorriu. A história por trás daquela tatuagem era longa e hilária.
- Vou te contar a versão resumida dela. Antes era um sapo, e para cobrir fiz a borboleta, as esferas verdes na borboleta são restos do sapo.
Melinda sorriu com vontade.
- Então, temos o primeiro caso a borboleta que venceu o sapo.
- É, mais ou menos isso.
Ambos caíram na risada.

VII - A Via da Salvação.
Ian deixou Melinda ler a sua obra prima, o famoso Conto VI, o seu desabafo. Ela ficou no computador lendo e Ian se deitou na cama ao lado dela. Depois de uns minutos, em que Ian quase caiu no sono, ela começou a dar risada, que depois de alguns segundos se tornou uma gargalhada histérica e gostosa de ouvir.
- A vaca? – Ian perguntou.
- Sim. – Ela disse, e foi a única coisa que conseguiu dizer, acreditou por um segundo que iria se mijar de tanto rir. – Meu Deus! O que é isso?
- Ah, viagem minha!
- Genial, adorei.
- Obrigado!
Ian sabia que qualquer um que tivesse lido aquele trecho lisérgico de seu conto teria uma reação parecida com a de Melinda, mas naquela altura, o conto em si não tinha muita importância, achava que sua vida era mais importante. E aquele trecho aparentemente inocente e cômico no conto seria o que tiraria todas as dúvidas sobre a habilidade sobrenatural que aquele conto havia adquirido. 
- Alguém mais tem esse conto? – Ela perguntou.
Ian se arrepiou. Estava prestes a dizer “não” quando se lembrou que havia tirado uma cópia para a sua professora de literatura do cursinho, ainda quando o conto estava em processo de idealização, Mas mesmo assim, naquele protótipo já havia desgraças demais.
- Merda! – Pensou alto.
- O que foi?
- Passei para uma professora.
- Isso é ruim?
- É se eu tiver de destruí-lo.
- Ah... – Ela não soube dizer mais nada.
- Soei confuso? 
- Sim. 
- Acho que não deveria ter posto tanto de mim num pedaço de papel, só isso.
(Ela não vai acreditar, ela vai insistir e perguntar, e eu vou ter de contar, e ela vai achar que eu sou doido)
- É. Isso aqui realmente está pesado demais.
Terminaram essa conversa por isso mesmo. Decidiram que iriam pegar o violoncelo no dia seguinte. Chegaram à conclusão de que já haviam avançado o suficiente por aquele dia.
Ian a deixou em casa e depois voltou para casa, precisava ficar de vigia. Chegou em casa, preparou um sanduíche com qualquer coisa
(por que diabos mãe prepara uma salada de carne?)
e se sentou à frente de sua casa.

VIII – Coração Atômico de Mãe
Eram oito e meia da noite.
O horário de verão ainda não havia permitido o sol de se pôr completamente. O céu estava com um tom lilás. As luzes de alguns postes na rua já estavam acesas, um tom amarelado preenchia o ambiente, dando um aspecto espectral à sua vizinhança. 
Ian estava sentado na calçada, encostado à parede de sua casa. Suas mãos estavam úmidas de suor. E com certa freqüência limpava os óculos na camiseta que usava.
“Eu devia ter especificado um horário”, pensou.
Mas agora era tarde. Deveria ficar ali de vigia até a meia noite. Se aquilo não acontecesse, era paranóia de sua cabeça. 
Mas, e se acontecesse?
E se o absurdo dos absurdos acontecesse, bem em frente a sua casa?
E se ele perdesse o controle?
E se...
“Pare de pensar essas besteiras!” gritou para a sua própria mente. 
Naquele exato momento, onde quer que esteja, Dorian deveria estar rindo, e com gosto. Não sabia por que, mas Ian sentia que ele o odiava. Pensar nele fazia com que os pelos em sua nuca se arrepiassem como se fosse um gato após encontrar, sem querer, um cachorro ao pular o muro do vizinho.
Ele era o gato, Dorian, era o cachorro.
Ele era o sapo, Dorian, a borboleta.
Ele era Dorian, agora não é mais.
Ian sempre pensou em Dorian como uma imagem de si mesmo. Isso até começar a sentir que sua cria havia ganhado vida própria. Depois de Dorian ter levado o resto de pizza para a casa de Ian, Dorian havia ganhado aparência própria. Ian era moreno, cabelo dividido ao meio, mas ainda de uma forma meio rebelde, e ainda usava os óculos.
Dorian agora era loiro. Tão loiro que seus cabelos chegavam a ser alvos. Fios maiores e mais rebeldes, como se ele sempre tivesse acabado de acordar. Ian tinha olhos castanhos. Dorian agora estava com olhos cor de mel, quase amarelos.
E o que mais enchia Ian de ódio.
Ian era uma pessoa séria. Sabia rir de si mesmo e das ironias da vida, mas sempre que se olhava, ou quando se imaginava, estava sério. Já Dorian estava sempre sorrindo. Um sorriso irritante. Como se estivesse o tempo todo zombando de Ian. 
Nove horas.
Ian quis um cigarro. 
Não era fumante, e havia fumado muito pouco em sua adolescência. Mas sabia o quão aquilo ajudava a controlar a ansiedade. 
“Fique calmo em troca de um câncer”, e riu de si mesmo.
Dorian fumava? Ele ainda não havia definido isso. Mas agora deveria estar fumando um cigarro. Um Marlboro azul. Ian havia perdido o controle sobre ele. Bem... que morresse de câncer.
Dez horas.
Seu estômago estava doendo.
Não sabia se era acidez, ou refluxo, ou qualquer problema de ordem psicossomática, que atacava seu estômago. Sabia que estava doendo.
Estava sentindo dores havia um tempo. 
Uns dias atrás, não sabia definir exatamente desde quando estava com dores, agora sabia definir até o horário em que elas começaram.
“Dorian estava chorando ao telefone...”
Desde que escreverá essa frase, o começo da Via da Salvação, o começo de toda essa paranóia, ele sentia aquela dor em seu estômago.
Onze horas.
Sua mãe já deveria ter chego. 
Ian atravessou a rua, e voltou. Precisava esticar as pernas.
Algum paciente de sua mãe deveria estar dando problemas a ela.  Quando isso acontecia, ela chegava tarde. Houve dias em que ela chegou mais de uma da manhã. 
Ian pensou em seu pai.
Os seus pais estavam divorciados há alguns anos. E via seu pai com pouca freqüência. Estava com saudades dele. Ele provavelmente não estava com saudades de Ian.

Onze e cinqüenta e nove.
A comemoração de Ian se limitou a um suspiro de alívio.
A loucura toda havia acabado. 
Nada iria acontecer. Ian saiu vitorioso em uma batalha imaginária. 
  Levantou-se da calçada dando risada de si mesmo. Olhou o horário em seu relógio de pulso. 
Um alívio ainda maior surgiu quando o relógio apitou meia noite, e o dia de hoje se tornou o amanhã.
Ian desejou que o dia acabasse às seis da manhã para poder contemplar o sol nascendo, e enterrar os seus temores à luz do dia.
Mas agora ele deveria ligar para a sua mãe. Estava ligeiramente preocupado com ela, pois geralmente ela ligava quando havia algum imprevisto e chegaria tarde.
Abriu o portão e entrou na área de sua casa, quando começou a escutar um pequeno zumbido.
Era grave e contínuo e parecia estar cada vez mais perto. 
Ian voltou para a calçada. Olhou para os dois lados, para cima, e nada. Apenas a mesma escuridão e as luzes amarelas.
O barulho de um carro se aproximando se junto ao zumbido contínuo. Ambos se aproximando. 
Ele se virou para a esquina esperando um carro surgir. E assim aconteceu. Era a sua mãe.
A luz do carro passou por ele durante a curva e à medida que ele se aproximava da casa dele, ia perdendo velocidade.
O zumbido ainda continuava.
A mãe de Ian parou o carro de frente para a garagem e esperou que seu filho abrisse o portão. Ian começou a fazê-lo, de costas para o carro, quando ouviu o estrondo.
O barulho foi uma mistura de vidros quebrando, lataria de carro sendo esmagada, e ossos se partindo.
Cacos de vidro atingiram as costas de Ian e caíram no chão. A sua sombra projetada pela luz do carro, antes, estava no chão da garagem. Subitamente começou a ser projetada no teto da mesma. Como se estivesse o iluminando por baixo.
Ian se abaixou para se proteger. E só depois de uns segundos se levantou. 
Havia muita poeira, e um choro baixo.
Um gemido de dor.
Ian se virou e gritou. Achou que um carro em alta velocidade havia se chocado com o de sua mãe.
Mas o que viu ao se virar foi bem longe disso.
- Mãe! – Ele gritou.
Mas ela não respondeu. Havia apenas um gemido de dor contínuo, carregado de sofrimento.
E esse gemido não vinha de sua mãe.
Ian observou o carro. Limpou os olhos com as costas da mão e observou de novo.
Ânsia, tontura. Achou que ia apagar.

Sobre o capo do carro, deitada, ainda viva, gemendo de dor e mexendo as patas como se estivesse correndo havia uma...
(não pode ser!)
...uma vaca!

Autor: João Kauê Aguena Guirro. Para saber mais sobre o autor, conheça seu blog (aqui!).

P.S.: Amanhã vai ao ar a última parte do conto. Fique de olho! ;)