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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Especial de Halloween: Conto VI - parte 1

Quem acompanha o blog sabe que eu morro de medo de livros, filmes, vídeos e tudo mais de terror. Maaas, como o Halloween tá chegando e eu não queria deixar a data passar em branco, resolvi postar um conto de terror psicológico.

Vou dividir o conto em algumas partes e até dia 31 eu posto tudo. Espero que vocês gostem!



CONTO VI

I - Prelúdio
Seus dedos se moviam com beleza e perfeição únicas.
Estava com os olhos fechados, um pouco concentrada, mas ainda assim era capaz de notar um leve sorriso em seu rosto, sua mão esquerda estava no braço do violoncelo, a mão direita, no arco. A única iluminação naquele palco, naquele momento, era um spot, diretamente sobre ela, como um raio de sol iluminando algo sagrado. E se aquilo não fosse sagrado, ninguém mais saberia o que era. Usava um vestido vermelho sangue, com detalhes em preto, seus cabelos loiros, encaracolados estavam presos apenas de forma que sua franja não caísse sobre os olhos durante a apresentação, o que foi inútil, já que ela não os abriu momento algum.
A música era Suíte n° 1 em Sol major, BWV 1007, Prelúdio, para violoncelo, de Bach, uma peça que não precisava, de forma alguma, ser ajudada pela beleza infinita que aquele anjo impunha na execução. A soma de ambos era algo que ninguém naquela platéia iria esquecer. Ela sorria, a platéia sorria, o violoncelo sorria. 
Mas uma pessoa naquela platéia, não somente sorria, estava em estado de felicidade pura. Lágrimas realmente brotavam de seus olhos, quando ele fechava os olhos, acreditava que iria derreter sobre aquela cadeira, virar uma sopa humana de felicidade.
Ele estava lá, somente para assistí-la, somente por ela, para ela. Ou então, ela estava lá somente por ele, para ele, simplesmente não fazia diferença. Tudo que sabia era que após aquela apresentação sairia com ela, sairiam para jantar, sairiam para olhar a lua, para contemplar a natureza, para abençoar a arte, para o que fosse, o simples "sairiam juntos" para ele já o emocionava, já o fazia feliz para a vida toda, naquele momento.
A peça finalmente teve um fim, os dedos dela pararam, ela se levantou da cadeira em que estava sentada, respirou, e abriu os olhos, e somente nessa hora ela percebeu que um único raio de luz a iluminava, somente nessa hora ela percebeu o que causou na platéia, passou os olhos pela platéia à procura dele, e o encontrou, na primeira fila, como o combinado. Ele estava chorando.
A platéia aplaudiu, uma lágrima brotou de cada olho, ela abriu um sorriso, que ficaria marcado na vida daquele garoto sentado na platéia, se curvou, cumprimentando a platéia, deixou o arco sobre a cadeira, e simplesmente saiu.
Nessa hora, o encanto da serpente havia se encerrado, as cortinas se fecharam e as luzes se acenderam, algumas pessoas andavam atrás da cortina trazendo algo grande, era com certeza um piano. O garoto olhou o repertório daquela noite, num papel previamente colocado sobre cada cadeira naquela platéia, a próxima peça seria Moonlight Sonata - Claire de Lune Sonata em Dó menor de Beethoven, que seria executava na íntegra por apenas um garoto, que ele não teve paciência nem tempo de ler o nome, tinha de sair dali e encontrar aquele anjo que acabará de sair do palco. Combinaram de se encontrar na entrada dos bastidores, após ela sair de cena. 
Nessa hora ele percebeu os pontos positivos e negativos de estar na primeira fila. Não teria de pedir licença para ninguém, não enfrentaria o dilema de dar a virilha ou o traseiro, tão pouco correria o risco de pisar no pé de alguém, mas simplesmente todos os olhos que ali estavam, se voltaram para ele, saindo no meio de um espetáculo de perfeições. Ninguém, mesmo em pensamento o reprimia, mas ele sabia que o estavam olhando e isso o incomodava. 
Ficou imerso nesse pensamento até seus olhos baterem na porta do que seria o camarim dos músicos, e lá estava ela, parada, ainda como um anjo, o mesmo que deixará o palco segundos atrás, ela não estava conversando com ninguém, não estava arrumando nada, não estava cuidando de nada, estava parada, encostada na parede, simplesmente esperando por ele.
Seus olhos se cruzaram, nesse momento o garoto pianista começou a execução do primeiro movimento de Claire de Lune, mágicas tercinas, notas simples porém belas. Mí, Lá, Ré, Mí, Lá, Ré. A noite de magia estava apenas começando.
- Olá, Ian - Ela disse.
- Olá, Mel, meus parabéns! - Ele respondeu.
Ela se envergonhou, se cumprimentaram, e saíram do teatro jogaram conversa fora, saíram, saíram juntos, se foram.
II – Mesa a dois
Ambos riam. Ian embora com dezoito anos fizesse meses, havia decidido se abster de álcool durante um tempo, não colocara uma gota de álcool na boca havia semanas, mas naquele momento sentia-se ébrio. Melinda devia estar com seus dezoito, dezenove anos no máximo. Assim ele acreditava, assim ele sabia, pois ele havia inventado-a.
    Assim que haviam saído do teatro municipal tiveram uma breve discussão sobre onde iriam. Ele não queria decidir, nem ela.
- Faz parte de mim já, damas decidem. – Havia dito a ela.
Assim ambos foram para um restaurante à lá carte próximo. Foram no carro de Ian. A única coisa que Ian acha que era uma benção, uma vantagem sobre seus amigos.  Ele havia tirado carta primeiro. Alguns deles nem haviam feito dezoito anos ainda.
- E então senhor Ian da Silva Sauro. O que você faz quando não está se escondendo na biblioteca da escola? – Ela perguntou com um tom de brincadeira.
Eles haviam se conhecido na biblioteca da escola onde Ian fazia cursinho, ela fazia estágio na biblioteca municipal, e ia com certa freqüência para aquela escola. Na ocasião em que eles se conheceram, Ian estava lendo alguma coisa, segurava o livro na altura do rosto, assim, impedindo que qualquer um tenha contato visual com ele. Melinda tinha de levar justo aquele livro de volta à biblioteca municipal. Abordou-o, assim se conheceram.
- Bem... Respiro, e durmo, parei de comer e de beber. – Ele zombou.
- Seu vegetal, diga logo! – Ela exigiu ainda em tom de brincadeira.
Ian sabia que era aquele momento de impressioná-la, era a hora, sabia que aquele anjo solista à sua frente cairia da cadeira após ouvir o curriculum vitae dele.
- Bem, atualmente faço cursinho... – Decidira usar a ordem crescente dos fatos. -...pretendo Música em algumas faculdades, e Letras em outras... – Percebeu um leve brilho brotar nos olhos de Mel. - ... toco guitarra, violão, baixo, violino, e piano... – Mel olhou com surpresa para ele, ia exclamar alguma coisa, mas aparentemente Ian não ia parar de falar ainda - ... tenho artigos publicados no jornal da cidade, e alguns contos publicados em revistas nacionais. Acho que só!
  Mel ficou boquiaberta. Depois de alguns segundos ela finalmente conseguiu falar:
  - Mentira! – Atacou.
  Ian já esperava essa reação, muitas pessoas não acreditavam, mas o pior, era verdade.
  - Tenho provas! – Contra atacou. Sorriu.
  - Estou jantando com um Da Vinci, que honra! – Ela sorriu.
  Ela foi pega.
- A honra é toda minha. – Fez uma pausa. – Toda minha, mesmo.
  - Com licença. – O garçom havia interrompido a conversa. – Os seus pratos.
Ele havia pedido uma salada e um suco de laranja, seu estômago estava um lixo desde
(desde que começou a escrever aquele conto)
umas semanas atrás. Ela, a mesma salada, mas acompanhada de um vinho.
Eles jantaram, conversando sobre literatura, nesse aspecto, Ian era mais informado do que ela, na mesma proporção de que ela era melhor em conhecimento musical. 
  - Mas, diga lá Ian, o que você está fazendo agora? – Certo momento ela perguntou, Ian estava feliz, ela estava se mostrando mais interessada do que ele.
- Bem, fora estudar como um cachorro, estou escrevendo contos para enviar para um concurso de contos. – Sua expressão doce havia se dissipado. Por que ele havia mencionado o concurso de contos? Ele não queria falar sobre isso.
- Concurso? De onde? – Ela perguntou. Nesse ponto, o interesse dela por ele estava começando a incomodar.
- Quer mesmo saber? – Ele perguntou em tom desafiante, desejando, sinceramente que ela recua-se. 
- Lógico! 
(Sua filha da mãe)
  - De uma comunidade do orkut. – E sorriu, esperando que ela encara-se aquilo em tom de brincadeira.
Passaram-se alguns segundos, depois, ela caiu na risada. Ele a acompanhou.
  - É sério? – Ela perguntou.
  - Sim, lógico. – Ele definitivamente não deveria ter comentado isso. – Mas é uma questão pessoal.
  - Como assim? – Ela perguntou.
Ian agora foi invadido por aquele sentimento de derrota novamente, na edição anterior do concurso ele havia perdido, havia sido derrotado, e não apenas por uma pessoa, mas por várias, não havia pegado a pole position, nem o podium, era vergonhoso, para ele, não conseguir nenhum lugar naquele concursinho. 
  - Veja bem... – Ele começou. -...eu tenho contos publicados em revistas nacionais, estou com planos de publicar um livro, assim que uma editora aceita-lo, entrei em uma edição anterior desse concurso apenas por hobby, para alimentar um pouco o ego. – Nesse ponto Mel voltou a rir. – E, para meu completo espanto, surpresa, e desonra, além de não ter pegado o primeiro lugar, fui derrotado por pessoas amadoras. – Parou de falar.
  Mel fez silêncio por uns segundos. Depois disse:
  - Orgulho... Um dos pecados capitais. – Estava séria.
  - Bem.. – Ian resolveu largar aquela conversa séria e voltar ao clima de descontração anterior. - ...eu sou assim! – E sorriu.
  O foco daquela noite passou para Melinda. Ian estava realmente encantado com aquela menina, ela amava a arte, mas fazia faculdade de história, morava com a mãe, o pai morava na Hungria, mais especificamente em Budapeste.
(Budapeste, estou aprendendo. Budapeste, você está me queimando)
Ela realmente tinha dezoito anos, amava a arte sob todos os aspectos, mas era leiga, tanto quanto ele, em pinturas e esculturas.
- Música é vida! – Comentou antes de ela prosseguir. Ela concordava.
Depois de uns minutos ouvindo-a falar, Ian percebeu que realmente sentia-se ébrio, estava realmente bêbado com tanta beleza à sua frente. Com tanta razão à sua frente. Já não entendia uma palavra do que ela dizia. Apenas contemplava o seu rosto, seus olhos verdes, e o som de sua voz. Já era o bastante.
Terminaram de jantar. Ian fez questão de pagar a conta toda, apesar da insistência de Melinda em dividi-la. Saíram do restaurante e se dirigiram ao carro.
- Que horas são? – Ela perguntou.
- Meia noite e uma. – Ele respondeu. Havia visto num daqueles relógios e termômetros gigantes que havia pela cidade, alternando entre, hora, temperatura, alguma publicidade de alguma loja. 
Repentinamente Ian se arrepiou. A maldita tinha horas para voltar! Em seus plenos dezoito anos.
- Você tem horas para voltar? Se quiser, eu posso levá-la, com todo o prazer. – Disse.
- Não, não. Não era isso, não tenho horas para voltar. – Ian se aliviou. Ela virou-se para ele, com um sorriso um pouco diferente do que estava acostumado a ver no rosto dela, um pouco mais pervertido. – Esta noite será eterna.
- Que assim seja! – Ele respondeu.
Ambos entraram no carro, era muito visível o nervosismo de Ian. Estava com as palmas das mãos suadas, pálido, e perdera total controle sobre o tique em suas pernas. Ele queria relaxar, ele precisava relaxar, urgentemente.
Tentou não pensar nas palavras, sexo, preliminares, nudez, e beijo. Mas a ânsia por elas o impedia. 
Melinda percebeu a perna de Ian balançando freneticamente, e levou sua mão esquerda ao joelho direito dele. Um toque doce.
- Relaxe. – Disse.
E funcionou. Ele se acalmou. Deu partida e saíram. 
III – Coincidências
Ele pôs uma música suave, tentando dar um clima à situação. Estavam deitados em cima de um edredom, na grama, no meio do nada. Olhando as estrelas. 
Assim que haviam saído do restaurante, ela disse que queria mostrar-lhe algo. E o guiou até uma estrada que dava para fora da cidade. Ian voltou a ficar nervoso. Depois de uns dois quilômetros fora da cidade, ela mandou-o entrar numa pequena estrada de terra que dava, supostamente, a um sítio, ou chácara.
- A chácara é do meu pai. Ninguém vem para cá. – Ela disse.
Ian parou o carro , saíram. Tirou o edredom do porta-malas.
(maldito, sabia que seria útil algum dia).
estendeu no chão. E ambos se deitaram para olhar as estrelas.
- Isso é lindo. – Ele disse, quebrando o silêncio de alguns minutos.
- É sim, costumava vir com meu pai, até ele se mudar para a Europa. – Ela respondeu.
- Que honra! – Ele disse, ela o havia levado ao lugar em que costumava ir com seu pai. Isso era bom. Muito bom.
- Você usou essa frase demais hoje. – Ela disse.
- Todas às vezes, com a mais pura verdade. – Ele completou.
Ian estava com ambas as mãos debaixo da cabeça. Deixara seus óculos no carro. Estava se concentrando em relaxar. Sem sucesso.
Melinda estava deitava ao seu lado. Ambas as mãos sobre a barriga. E mesmo com a pouca iluminação que recebiam, dava para notar que ela estava sorrindo. 
- Diga uma palavra! – Ela pediu, repentinamente.
 - Como? – Ele foi pego de surpresa.
- Uma palavra, qualquer uma, a primeira que vier á sua mente.
- Coincidência. – Ele respondeu.
- Bela escolha! – Ela disse. 
- Obrigado! Mas agora, explique-se!
- Queria saber o que você está pensando.
- Funcionou?
- Não. – Ela sorriu, e depois em um tom irônico. – Mas me deixou extremamente curiosa.
- Basbaquice.
- Diga!
- Quer mesmo saber? – O mesmo tom desafiante que usou durante o jantar.
- Vou ser forçada a torturá-lo, Senhor Ian?
- Okay! Eu conto, mas com uma condição. – Fez uma pausa. – Duas!
- E quais seriam? – Ela estava se divertindo com aquela conversa, ela via que ele estava visivelmente nervoso, mas ela tinha a habilidade de não demonstrar nervosismo, o que era um ponto positivo demais para ela, pois estava realmente muito nervosa.
- Um, não vai rir de mim. 
- Sim, e... ? – A segunda exigência com certeza intrigava mais, ambos.
- Você me dará algo em troca! – Ele disse, por fim, virando seu rosto para ela.
- Combinadíssimo!
Ian começou a falar. A longa e louca narrativa das semanas passadas. 
Sua ex namorada havia terminado com ele, na mesma semana em que havia tido a desonra de perder um concurso de contos na internet. Sua mãe havia perdido o emprego, embora já tenha arrumado outro na mesma semana, mas tinham sido dias difíceis.
Depois de se recuperar um pouco resolveu se empenhar em escrever contos, para mandar para revistas e para a próxima edição do concurso. Era questão de honra ganhar o próximo concurso e questão até mesmo financeira publicar algum em alguma revista ainda naquele mês.
Havia escrito oito contos. Dois deles haviam sido aceitos por duas revistas diferentes. O que o aliviou por uns dias. Mas com os seis seguintes, ele tinha de fazer uma escolha dolorida. Qual enviar para o concurso?
Dos seis seguintes, havia dois que Ian tinha preferência. O Conto V, (Melinda achou interessante a forma como ele organizava as coisas que escrevia) que ele havia chamado de “Dente de Novembro” que era sobre um cara que havia apenas uns dias de vida, e queria aproveitar o máximo todos os aspectos da vida. Era um bom conto, mas era previsível, emotivamente forçado, e faltava algo nele, que Ian não sabia o que era. E ainda havia o Conto VI.
Os olhos de Ian brilhavam ao falar dele, chama-se “Via da Salvação” e era, sobre um garoto com problemas de adolescente, um tema babaca, mas que Ian conseguiu tirar um bom proveito. 
(Lógico, seu idiota, era uma autobiografia.)
O personagem principal, chamava-se Dorian. Ele havia perdido a namorada e estava em crise quando encontrou uma outra garota, que passava a ajudá-lo a sair da depressão 
(Prazer, Melinda!)
E ainda envolvia um parente com câncer que precisava de dinheiro, e mais cobranças da vida. Era desgraça atrás de desgraça. Mas Ian estava apaixonado por aquele conto.
- Agora entra as partes bizarras. – Ian interrompeu sua narração.
Melinda bateu continência, sorriu e disse:
- Estou preparada.

Ian continuou. 
O primo de Dorian, que estava com câncer, precisava urgentemente de dinheiro para o tratamento. A tia de Ian, que estava com câncer, precisava urgentemente de dinheiro para o tratamento. Quando Ian percebeu que havia posto desgraças demais no conto, resolveu fazer com que de alguma forma, o primo de Dorian ganhasse uma grana alta. Resolveu faze-lo ganhar na loteria. Sua tia, uma semana depois, ganhou na loteria.
- Não acredito! – Disse Melinda, muito surpresa.
- Pois é! Inacreditável, não? 
- Muito, muito.
- Deixe-me continuar. – Ian prosseguiu.
  Dorian havia se apaixonado pela garota que o estava ajudando. Ela se chamava Samara. Ela tocava violoncelo, era loira, e possuía olhos verdes apaixonantes. Ian havia escrito antes de conhecer Melinda.
- Isso foi algum tipo de indireta? – Perguntou Melinda.
- Mel. Apesar de ser a mais pura verdade, essa noite toda foi uma indireta. – Respondeu. Suas pernas não tremiam mais.
Estavam com os narizes a um palmo de distância. A respiração dela, quente, confortante, tocava a boca de Ian. Ambos ansiavam por aquele momento. Lentamente se aproximaram e se beijaram. Ian não se lembrava do que haviam conversado trinta segundos atrás. Apenas sentia aquele corpo quente colado ao seu. 
As mãos dele de modo suave e ao mesmo tempo selvagem pelas costas dela, uma subiu até a nuca dela, a outra desceu até a cintura, ambas apertaram-na.
Melinda passou as mãos pelas costas dele, passou em suas nádegas, e começou a se mover lentamente para a sua virilha.
Paixão, desejo, beleza e vida, estavam presentes naquele edredom, sob a luz das estrelas.
Ele puxou-a para cima dele. Suas mãos deslizavam sobre seu corpo. Sob suas roupas. 
O belo vestido vermelho jogado no chão.
Calças, roupas íntimas, espalhados pelo edredom e jogados na grama. Sons molhados e gemidos em primeiro plano, o som de uma música qualquer em segundo plano.
- Meu Deus! – Exclamou Melinda, deitada sobre o edredom, ainda nua. Estava com os cabelos desarrumados e molhados de suor, assim como o resto de seu corpo. Estava virada para cima, ainda em estado de êxtase. Aquilo havia sido bom, muito bom. Depois de algum tempo, que não tinha capacidade de julgar se foram minutos ou segundos, virou-se para Ian.
Ele estava deitado de lado, de costas para ela. Só então ela viu a pequena tatuagem que ele tinha nas costas. Era uma borboleta com ambas as asas abertas, era quase inteira preta, mas havia uma bola verde em cada asa, e elas pareciam encará-la.
- Iam? Está acordado? – Ela perguntou.
Um gemido de exaustão acompanhou o movimento dele de se virar para cima, assim como ela estava.
- Meu Deus! – Exclamou também. E virou o rosto para ela. Ele estava sorrindo. 
Ambos começaram a rir. 
- Enfim, somos dois animais. – Ela disse, entre risos.
- Humanos, animais, cadeiras, cobertores, nem consigo definir a diferença entre isso tudo agora! – Disse, também ainda entre risos.
Ambos deram mais risadas. Ambos estavam no paraíso. Ambos estavam, naquele momento, experimentando a perfeição diretamente da fonte.
Quando conseguiram voltar à realidade, já eram mais de duas e meia da manhã. Melinda tinha de ir embora, e Ian estava realmente inspirado, precisava escrever, urgentemente. 
Vestiram-se, entraram no carro e voltaram para a cidade.
Ian estacionou na frente da casa de Melinda. Olhou-a nos olhos. Grandes olhos verdes que o puxavam, o tragavam para dentro dela. 
- Mel. Eu... – Respirou. Fechou os olhos por um segundo e tornou a abri-los. – Sei que é cedo para dizer isso, mas... – Exitou um segundo, e finalmente disse. – Eu amo você. Eu...
Melinda não o deixou terminar, repentinamente beijou, com paixão. Dirigiu seus lábios aos ouvidos dele e disse:
- Eu amo você, desde o primeiro instante em que te vi. – E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela saiu do carro. E correu para a porta de sua casa.
Ian apenas ficou observando-a através da janela aberta do carro. Até correndo ela exibia graça e doçura. 
Quando se deu por si, ligou o carro e voltou para sua casa. 
Entrou silenciosamente para não acordar sua mãe (o que foi inútil, pois o barulho do carro compensava todo o silêncio), estava faminto. Foi direto à geladeira. Nada. Nada realmente comestível. Ficaria com o café gelado. Encheu uma caneca.
(300 mL da mais pura cafeína gelada, refrescam até pensamento)
Foi ao quarto de sua mãe, e como previu, estava além do REM*, estava vivendo o sonho dela, ainda de óculos e um livro em mãos.  
Foi para seu quarto, ligou o computador, e foi escrever. Não pensou nem uma vez sequer em clicar em outro conto senão no seu sexto conto. O Conto VI. Sua criação máxima. Escreveu durante algumas horas e dormiu. 

Acordou ainda com fome, não se lembrou de sonho algum. Levantou-se e foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira.
(Mama mia!)
Pizza fria, o café da manhã dos campeões. Pegou um pedaço com a mão e tomou rumo ao quarto. 
No corredor, ainda a caminho de seu quarto, estacou. Virou a cabeça lentamente para a esquerda, onde se encontrava um espelho e viu-se, segurando um pedaço de pizza, cabelos desarrumados, sem óculos, um pedaço de pizza. Um pedaço de pizza?
No dia anterior quando chegou em casa, esfomeado, caçou desesperadamente algo para comer e não havia nada, além de umas saladas de sua mãe e condimentos. Mas agora, naquele exato momento, estava comendo um resto de pizza. Um resto de pizza de ontem. 
Ontem ninguém naquela casa havia comido pizza nenhuma. Ian olhou para seus olhos, e algo começou a subir pela sua coluna, até a nuca, algo frio, e arrepiante. Algo sobrenaturalmente assustador. 
Ontem ninguém naquela casa havia jantado pizza a não ser...
Ficou com medo de pensar.
Mas sabia o que estava acontecendo, e sabia o que era aquele algo gelado em suas costas.
Dorian havia jantado pizza ontem de noite. Era a mão de Dorian em suas costas. Acariciando seu criador. 
O maldito havia jantado pizza, e agora Ian estava comendo o resto da pizza dele. 
Depois, com mais razão o pensamento se tornou:
  “Não, EU escrevi, descrevi e mentalmente saboreei a pizza, ela NUNCA existiu”
Mas estava lá, fria e saborosa em sua mão. Dorian existia apenas em sua mente. Ele é um personagem inexistente. Ele não existe, Ian existia.

Autor: João Kauê Aguena Guirro. Para saber mais sobre o autor, conheça seu blog (aqui!).

11 comentários:

  1. Eu adooooro tudo que seja relacionado ao Halloween, coisas de terror, zumbis, tudo isso ahuahuah
    Adorei o conto *ooo* quero mais, quero maaaais hauha

    Beijorejas

    Blog: http://cerejamutanteblog.blogspot.com.br/

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    1. Sério Brenda? Morro de medo de zumbis! hahah Não assisto The Walking Dead por nada :S

      Que bom que você gostou do conto! :)

      Beijo!!

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  2. meninas que conto! então no final, "nada existe" rsrsrs bom não achei de terror, achei mais de suspense, mistérios rsrsr
    Olha tem post novo "Compras no site Miniinthebox" poderia me visitar? e rola sorteio de tablet e depois vou fazer de filmadora, e sempre que também você tiver post novo, me avisa, sempre venho ver
    magrafelizpensa.blogspot.com

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  3. ai que bacana! eu tbm adoro td relacionado ao halloween!

    www.tofucolorido.blogspot.com
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  4. UAU. Morri de medo desse final, acho que jogaria a pizza pra bem longe de tanto pavor! rs...

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  5. Ai meu deus, como você para nessa parte? Bem quando tava ficando mais emocionante, haha. Quero ler o resto logo, parece bem interessante o conto *-* mas a melhor parte é quando ele fala de comunidade do orkut hahaha

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Vem conferir o Especial de Halloween que tá rolando na Caverna!

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  6. Oi Gabi!
    Adorei o conto, estou bem curiosa para ver o final.

    Beijos!
    Books and Movies
    www.booksandmovies.com.br/

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    1. Oii Jessica!
      Que bom que você gostou! :)
      Posto o final amanhã!

      Beijo!

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