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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Especial de Halloween: Conto VI - parte 2

Demorou, mas a segunda parte do Conto VI já está no ar. Se você ainda não leu a primeira parte (tá esperando o que??) clica aqui! 


IV – Paranóia
Ian releu o conto inteiro, não antes de jogar a pizza no lixo, eram trinta e oito páginas. Trinta e oito páginas de desgraça, descrições detalhadas de momentos introspectivos de Dorian, momentos doces com Samara, e genialmente colocado, pequenos fatos que aconteciam nos contos da edição anterior do concurso. Marido morre um dia após morte da mulher, criminoso que havia estuprado a própria filha, morto em posto de gasolina, rumores de lobisomem solto nas florestas, um assassino em série vestido de palhaço, e até mesmo um qualquer da vida havia sido engolido por uma cobra, mas só. 
As poucas coisas que aconteceram no conto, haviam acontecido de verdade na vida de Ian. Na de Ian antes da de Dorian. Na de Ian antes da de Dorian até aquela manhã. 
A Via da Salvação, era, na verdade um desabafo de Ian sobre a sua própria vida, mas no conto, ele resolveu só colocar as desgraças e coisas tristes, e um motivo chamado Samara para sair daquele buraco. Era um conto de auto-ajuda. 
Mas os buracos que Ian colocou na vida de Dorian eram doloridos demais. Parentes com câncer, presenciou o próprio pai ser esfaqueado por trombadinhas, mas sair vivo, numa cadeira de rodas, e uma amiga sendo atropelada por um ônibus na sua frente. O sangue espirrava em Dorian. Era a parte mais sanguinolenta do conto, mas a que Ian mais gostou de escrever, a amiga era sua ex namorada, e foi prazeroso mata-la.
Os acontecimentos eram todos, pelo menos em parte, reais. O pai de Ian cairá de moto meses atrás, ficaram de cadeira de rodas algumas semanas, mas já estava recuperado. A sua tia havia ganhado na loteria para curar o câncer. E seu primo também. Nem conseguia definir qual aconteceu primeiro naquele momento. Ou se era a tia dele, ou primo de Dorian. Estava confuso. 
A idéia inicial que passou pela sua cabeça, que depois de uma briga violenta, Ian conseguiu enfiar dentro da privada, sentado em cima, e dado descarga, começou novamente a aparecer em sua mente.
Começou a rir de si mesmo. Como era bobagem. Não havia possibilidades, nenhuma, nenhuma mesmo de “isso” estar acontecendo.
Não mesmo?
Ian parou de sorrir. Era ilógico demais aquilo estar acontecendo. Mas, por um curto espaço de tempo, entre o espelho e o lixo do banheiro, pensou que poderia estar acontecendo em sua vida, tudo que acontecia no conto.
A idéia era muito ilógica para ser levada a sério. “Mas daria um conto fantástico” pensou. Ainda sentia algo gelado em suas costas, e aquilo era atormentador. Estava sentindo como se estivesse dentro de uma das histórias que ele próprio escrevia. “Então, só tenho uma semana de vida?” pensou e riu. 
A idéia que era horripilante, engraçada, cômica de tão ilógica, assustadora, surreal, e mais inúmeros adjetivos que Ian não conseguiu encontrar. 
Agora, ele nem sabia mais o que havia acontecido primeiro. Quem havia ganhado na loteria, quem estava com câncer, o pai de quem está vivo, quem era Samara, que era Melin... 
O telefone tocou interrompendo a linha de pensamentos ilógicos de Ian. E como se tivesse despertado de um sonho, saiu e foi à sala. Sua mãe não estava lá, devia ser mais de meio dia. A hora que ela geralmente ia trabalhar. O telefone ficava ao lado da televisão. Esse telefone, o único que Ian atendia. Havia o sem fio no quarto de sua mãe. Mas Ian não gostava dele, a bateria teimava em acabar rápido. Percebeu que demorara demais em atender ao telefone e correu atente-lo. Deu tempo. 
- Alô?
- O senhor acaba de ser premiado com toda a coleção Stephen King da Objetiva, por favor, deixar seu nome e telefone para contado – Uma voz feminina anunciou rapidamente.
- Hã? – Ian ficou muito confuso por uns segundos. 
- Ian? Sou eu, a Melinda. Bom dia! – Estava sorrindo, Ian podia perceber do outro lado da linha.
- Olá Mel. Bom dia... – Pausa – Alias, que horas são?
- Onze e alguma coisa. Acordou agora? 
- Sim. – E agora um pouco mais descontraído. – Nossa, como é bom acordar com a sua voz.
- Ai. Assim você me deixa com vergonha. – Ambos riram.
Melinda conseguiu parar de rir primeiro:
- Ian, vou direto ao assunto. – Disse, em um tom mais sério.
- Sim, claro. – Disfarçou, mas ficou receoso pelo que viria a seguir.
- Você, aqui em casa, hoje de noite, traga um violino. – Ela estava dando uma ordem.
- O que? 
- Jantar em família, que são um porre, e geralmente eu fico tocando violoncelo para aquele bando de parentes, mas eu deixei o meu no teatro, dai eu pensei em fazer-mos um dueto. O que acha?
Ian não conseguiu pensar em música naquele momento. Melinda estava chamando-o para conhecer a família. Haviam se beijado pela primeira vez ontem, e ela já estava chamando-o para conhecer a família. 
- Ian? Você está ai?
- Sim, claro. – Dei uma risadinha leve e envergonhada. – E por ventura vossa excelência, que horas este humilde servo poderia comparecer em vossa residência? – Um tom de brincadeira extremamente descontraído.
- Geralmente esses jantares começam as oito, venha umas sete horas. Tudo bem para você?
- Claro.
- Então, até de noite?
- Até.
Um pequeno silêncio.
- Ian? – quase um sussurro do outro lado da linha.
- Oi? 
- Eu amo você. – E desligou o telefone.
Ian ficou com o telefone colado à orelha por uns momentos, parado. Pensou em todas as coisas que haviam acontecido com ele, e chegou à conclusão de que Melinda foi a melhor, com certeza.
Sua ex namorada era uma modelo, era um ano mais nova, e um tipo de menina que com certeza não era para ele. Ela dava valor para coisas que Ian simplesmente ignorava. Ian não se importava com a roupa de marca que ela vestia, com o carro que o pai dela possuía. Não sabia os nomes das atrizes do horário nobre que ela tanto idolatrava. Não se importava com ela, principalmente. Mas ela era linda. E agora, principalmente, como Melinda era diferente.
Melinda dissera que era onze e alguma coisa, então a mãe dele ainda deveria estar em casa. Ian colocou o telefone no gancho e dirigiu-se para o quarto de sua mãe. Ela estava dormindo. Iria se atrasar para o trabalho.
- Mãe, acorde! – Disse dando uma pequena chacoalhada nela pelos ombros.
Ela se assustou, arregalou os olhos.
- Nossa! Que horas são?
- Quase meio dia, mãe.
- Ah, hoje só tenho paciente a uma da tarde, dá tempo.
- Que bom! – Ian de repente se lembrou de toda a loucura do conto VI. E resolveu que era a hora de tirar as dúvidas de algumas coisas, e a mãe dele era a única forma disso. – Mãe, quando a tia Bel pegou câncer e ganhou na loteria? Você lembra se foi antes ou depois de eu escrever no meu conto maldito lá, o do Dorian? 
- Ah filho, eu lembro, lembro até que comentamos sobre isso, você escreveu depois. Você me perguntou se eu me importaria se você colocasse desgraças que aconteceram de verdade, lembra?
- Ah, é verdade. – O alívio que ele sentiu nesse momento era indescritível. As mãos de Dorian que havia sentido pela manhã foram arremessadas a quilômetros de distância. Foram decepadas, colocadas em um cofre, e jogadas dentro do rio São Francisco. 
Ele se levantou aliviado e foi sair do quarto.
- Mas Ian... – Sua mãe interrompeu-o antes dele sair. – Foi seu primo, o filho da tia Bel, que teve câncer. 
Ian apenas suspirou. As coisas estavam ficando realmente confusas.
Sentou-se na frente do computador.
Releu o conto, uma, duas, três vezes. Havia criado um monstrinho. Ian não gostava de sua ex namorada, mas não queria vê-la sendo atropelada na sua frente. 
(não mesmo?)
E principalmente, não queria ver de forma alguma Samara com outro homem. Nunca. Melinda entrou na vida dele como sempre tivesse sido.
Apoiou a cabeça nos braços e ficou fitando o teclado do computador. Havia um modo de saber se tudo aquilo era verdade? Se estava ficando doido? Se estava...
Ian se arrepiou.
...controlando o seu destino?
Havia. Teve uma idéia brilhante. Escolheu um ponto qualquer do conto e escreveu. Aquilo acabaria amanhã de noite.
V – Dueto
Ao contrário do que Ian imaginava, Melinda queria o violino para ela, e Ian se dirigiu ao piano. Ian chegou no horário exato, estava com calça jeans e uma camisa preta, sem óculos.
- Não preciso de óculos para comer nem para tocar. – Disse à Melinda.
Ian pediu a ela para lhe apresentar como um amigo, e assim foi feito, sem constrangimentos para ele. A família dela era legal. Havia umas oito pessoas lá. A mãe dela era ela mais velha, exatamente igual. Um tio doidão que ficou bêbado em meia hora. Uns idosos que ele achou que eram os avós, e só.
Com tom de brincadeira, a ponta da mesa foi ocupada com uma foto do pai dela, que estava na Europa. Idéia do tio bêbado.
Ian novamente decidiu não tomar nada alcoólico, e nenhum refrigerante, ficou a base de suco, achou que seria mais polido de sua parte, mas chegou um momento que todos na mesa, com exceção dele, estava bêbados. A família dela era muito engraçada. Certo momento, o tio bêbado virou-se para Ian e disse:
- Vendo assim, nem parece que eu sou traficante, e que aqueles dois. – Apontou para os avós. – São usuários de heroína.
Ian se assustou, mas não teve nenhuma reação, apenas arregalou os olhos. Após um momento de silêncio todos caíram na risada. A família dela era demais.
Depois do jantar se reuniram na sala, jogaram conversa fora. E para a surpresa até dele mesmo, participou vivamente da conversa. Contou sobre os planos para faculdade, sobre a ex namorada (que o Tio Bêbado fez questão de perguntar o telefone), e sobre o acidente de seu pai.
Chegada à hora da apresentação, Ian pegou o “case” do violino abriu e tirou ele de lá. Melinda tirou-o das mãos dele.
- Você, piano. – Disse apontando para ele. – Mim, violino. – Disse com a mão apontando para seu próprio peito. Ian ficou uns segundos olhando para o decote do vestido dela. O que não passou despercebido por ela.
Ian sentou-se ao piano. Melinda ficou de pé ao lado dele.
- Algum pedido? – Ela perguntou.
Silêncio.
- Então solte o som dj.
Silêncio.
Ela se voltou para Ian. Ele estava olhando para ela, e só faltava uma interrogação pintada na cara dele para deixar mais explícito o que se passava. Melinda havia entendido perfeitamente que ele não sabia o que começar.
- Improvise. – Disse a ele. 
Então ele começou. Apenas arpeggiou uns acordes e repetiu um padrão. Melinda pegou o tom, e começou a improvisar em cima. 
Todos na sala ficaram boquiabertos com a química que rolava entre eles. Ficaram maravilhados, era um belo casal. 
O Tio Bêbado dormiu com menos de cinco minutos de apresentação. Mas o resto estava maravilhado com aquilo.
Ian, naquele exato momento começou a pensar nas coisas doidas que vinham acontecendo, nas coisas doidas que iam acontecer, e como, em apenas três dias sua vida mudará. Ele estava no meio de uma família muito bacana, e com a garota mais bela, inteligente, graciosa e perfeita de todo o mundo. Aquilo não poderia, nunca, ser invenção.
Melinda fez um sinal para ele terminar, e então ambos o fizeram, juntos, em perfeita harmonia. 
A família dela aplaudiu. O cumprimentaram, e rolou comentários sobre proposta de casamento com Melinda, comentários bobos de pessoas ébrias, mas que conseguiram deixa-lo  envergonhado. 
Ficaram jogando conversa fora até meia noite, o Tio Bêbado já havia ido embora quando a mãe de Melinda se aproximou dos dois e disse:
- Vou levar meus pais embora. Ian, por favor, fique em casa e cuide de Mel até a minha volta. 
- Claro, sem problemas. – Respondeu.
Antes de ela sair de perto dos dois deu uma piscadinha para Melinda, que sorriu de volta. Ambos os gestos passaram despercebido por Ian.
Eles ficaram completamente a sós na casa dela. Ian disfarçou o nervosismo brincando com o piano.
- Toque alguma coisa para mim, por favor. – Melinda pediu.
- Minha arma secreta. – E começou a tocar algo que Melinda identificou como sendo o terceiro movimento de Claire de Lune. Era uma peça rápida e de difícil execução.
Ela se levantou da cadeira onde estava e se aproximou de Ian.
O piano de cauda estava aberto. Ela do lado oposto das teclas e de Ian, fechou a tampa com cuidado para não atrapalhar a execução dele. Apoiou as mãos em cima da tampa e em um movimento subiu em cima do piano. E começou à engatinhar para Ian.
Ele ficou boquiaberto e a música parou.
- Continue. Se você parar, eu também paro. – Disse Melinda com um ar pervertido.
- Vou trocar de música. – E começou a tocar Por Elise, a famosa música do caminhão de gás.
E cada um começou a sua performance novamente. Ela engatinho de quatro para Ian bem lentamente, ele apenas observava cada simples movimento que ela fazia. 
Ela se aproximou dele e enfiou os seios em sua cara. Ele não parou a música e nem vacilou momento algum. Ela jogou os braços para trás, se apoiou, abriu as pernas, colocou cada perna de um lado de Ian, e puxou a barra do vestido até a cintura.
Ian, numa situação normal, apenas reagiria, mas nessa situação, nem reagir conseguia.
Ela puxou-o pelo pescoço para entre suas pernas.
E ele respondeu à altura, mas em nenhum momento parou de tocar.

VI – Sinceridade para você
Acordou com o rosto queimando. Havia se deitado com a janela aberta, o sol nasceu direto em seu rosto, nem pensou em ligar o computador, nem em conto nenhum. Ficou uns minutos deitado se lembrando da noite de ontem. Tudo havia sido perfeito demais para ser verdade.
Algo apertou seu peito.
“Para ser verdade”
Não estava gostando nem um pouco da maneira como estava encarando os fatos. E principalmente, não estava gostando nem um pouco da maneira de como uma idéia ilógica e fantasiosa havia se tornado uma ameaça para si mesmo. 
Observou o horário no seu despertador, eram oito e meia da manhã. Ainda haveria tempo para se encontrar com Melinda, iriam juntos ao teatro municipal pegar o violoncelo. Mas isso era plano para depois do meio dia. 
Levantou-se, tomou um café e se pôs a assistir televisão, havia meses que ele não se dedicava à alienação imposta pela máquina de fazer bobos, mas achou que uma dose não o mataria, afinal havia tantos alienados vivos por ai. 
Não viu às horas passarem. Adormeceu novamente. Sonhou que estava jogando xadrez com Dorian. E que ele estava perdendo. Quando acordou sua mãe já havia saído para trabalhar, era mais de uma da tarde.
O telefone tocou.
E sem nenhuma pressa ele foi atendê-lo.
- Alô? Ian? – Era uma voz feminina, muito bem conhecida por ele.
- Nathália? O que foi? – Uma ligação de sua ex namorada era a última coisa que ele pensou que teria de aturar depois de todos os ocorridos.
- Ian, você está bem?
- Sim, tudo bem, e com você? – “Por que diabos ela está enrolando?” Pensou.
- É, não. – Fez uma pausa de alguns segundos, e depois suspirou. “Ai vem merda” Passou pela cabeça de Ian. – Ian. Eu gostaria de conversar com alguém, e não tenho ninguém para conversar, não tenho mais amigas, não há ninguém em quem eu possa confiar. Eu preciso de alguém para conversar.
Ian sabia do que ela estava falando. Não exatamente, mas eram aqueles problemas idiotas que ele não dava à mínima. E também sabia o motivo dela não ter ninguém para conversar. Ela era uma pessoa falsa, cínica e manipuladora, até mesmo com as amigas dela, o resultado era essa conversa que ele estava tendo agora.
- E sua última opção foi me ligar. – Estava muito nervoso. – Que gratidão de sua parte.
Ela começou a chorar.
- Ian, você não entende mesmo! – E em seguida veio o grito. – EU ESTOU SOZINHA!
Ele não queria estar tendo aquela conversa. Sabia que Nathália não era exatamente uma boa pessoa, e tinha um temperamento difícil de lidar. Mas ficar ouvindo gritos de uma patricinha histérica estava fora de cogitação para ele.
- Eu te avisei. Não uma, nem duas, mas muitas vezes, que suas atitudes iriam ter conseqüências. Agora, pelo menos agora. Aja como uma pessoa adulta e enfrente-as sozinha.
- Ian, por favor...
- Nathália, essa conversa acabou! – E desligou o telefone.
Menina cretina.
De repente passou pela sua cabeça os momentos bons que passou com ela. Mas isso trazia consigo os momentos ruins, as várias vezes em que ele teve de ficar calado, e os vários conselhos que ele dera e que foram ignorados. Desejou, sinceramente, que aquela pessoa fosse atropelada, na sua frente.
- Estou ficando perturbado. – Disse à si mesmo.
A campainha tocou.
Não estava esperando visitas, e nem estava com paciência de aturar qualquer cobrança, isso era trabalho para sua mãe. Foi à janela da sala e observou lá fora. Não havia ninguém.
“Crianças”, pensou. E começou uma caminha para seu quarto.
A campainha tocou novamente.
- Não estou a fim de agüentar essas brincadeiras de criança. – Gritou de dentro de sua casa.
- Tudo bem! Volto em outra hora. – Anunciou uma voz feminina que Ian já estava muito bem familiarizado.
Correu para frente da casa, ainda à tempo de ver Melinda passando pelo portão da frente, rumo à casa dela.
- Mel, espere! 
Ela se virou, estava séria.
- Me desculpe, pensei que eram crianças, aquela brincadeira de tocar a campinha e sair correndo.
- Ah! – Sorriu de volta para ele. – Tudo bem. Eu me escondi de propósito mesmo. 
- Me desculpe!
- Tudo bem, eu já disse!
- Vamos, o que está esperando? Entre.
Caminhou Melinda até a sala da frente. Ela se sentou numa ponta de um sofá vermelho de três lugares, à frente da televisão. Observou a sala. Não tinha muito a cara de Ian.
- São coisas de minha mãe! – Ele disse, como se estivesse lendo a mente dela.
Um tapete pendurado como se fosse um quadro, com um elefante rosa com formas humanóides, e umas suásticas. Cheiro de incenso. Mensageiro dos ventos nas duas saídas da sala. Nunca esperara aquilo de Ian. Com certeza eram coisas da mãe dele.
- Percebesse. – E deu uma risadinha.
Quando os olhos dela se voltaram para Ian percebeu que este estava olhando para baixo, estava aparentemente desanimado com algo.
- Ian. Você está bem? 
- Sendo curto e grosso. – Fez uma pausa. – Não! – E sentou-se ao lado dela.
- O que foi que aconteceu?
- Ah, Mel, por favor, entenda, eu não quero falar sobre isso!
- Tudo bem.
Um silêncio perturbador caiu sobre eles. Ambos não estavam se olhando, estavam encarando o chão branco da sala. Não estavam se comunicando de nenhuma forma perceptível, mas ambos sabiam o que o outro estava pensando.
- Tudo bem, eu conto. – Ele disse, repentinamente. E contou sobre a ligação de Nathália.
- Ela não me parece ser uma pessoa ao seu estilo. – Ela disse após ouvir a narração de Ian.
- E não é mesmo. Eu nem sei como fiquei tanto tempo com ela, ou como fui me envolver com uma pessoa assim.
- É, esse tipo de desculpa não funciona comigo. Você sabe sim os motivos que o levaram a se relacionar com ela. – Melinda disse, de uma forma dura e doce, ao mesmo tempo.
Ian ficou pensando um tempo e chegou à conclusão de que não adiantava simplesmente não dizer nada a ela. Não adiantava simplesmente omitir os fatos que o perturbavam.
- Eu me sinto culpado. Eu poderia ter feito alguma coisa por ela, mas não fiz. E ela está sofrendo agora. De uma forma bem indireta, a culpa é minha.
- Não se culpe. 
- Sabe, ela é uma modelo, jovem, bonita, aquele tipo de menina que os homens realmente desejam. Mas, é só. – Respirou, apertou os olhos e começou a chorar. – E eu, fui um babaca, um completo idiota ao ir atrás dela. Para mim, ela não era uma pessoa. Não era algo vivo. Era mais como se fosse um troféu. Algo para se olhar e apreciar, como uma pintura, ou uma escultura. Escutar as idéias dela, os sentimentos dela, era uma tortura para mim. Eu simplesmente não agüentava aquela situação. 
- Ian...
- Não era uma namorada, não era uma pessoa. Era apenas algo em minha vida. Eu a usei e não pude fazer nada por ela. Nada.
Melinda o abraçou, ele apenas deixou-se envolver. Ela sentia a culpa dele, e queria confortá-lo, queria envolvê-lo.
- Mas, Mel... Com você é diferente. Eu amo você. – Melinda se arrepiou. - Eu quero saber de suas idéias, pensamentos, sentimentos, mesmo quando você estiver em meus braços.
- E você se culpa por isso?
- Eu não sei. Eu apenas não quero te perder, e não quero te tratar como acabei tratando ela. Eu...
Melinda não o deixou terminar a frase. O beijo, com intensidade e paixão. Sentiu o gosto salgado das lágrimas dele. Depois de um pequeno momento ele se deixou levar. Sentiram um a língua do outro. Sentiram um, a emoção do outro. Se sentiram por uns momentos, toda a culpa e ódio, mas também todo o carinho e amor que um sentia pelo outro.
Terminaram nus deitados no chão da sala. Ela com a cabeça sobre o peito dele.
- Obrigado por estar comigo. – Ian disse. Sem acrescentar mais nada, não era preciso.
Melinda apenas sorriu. 
- Ian. Posso te fazer uma pergunta?
- Sempre, claro!
- O que essa sua tatuagem?
Ian sorriu. A história por trás daquela tatuagem era longa e hilária.
- Vou te contar a versão resumida dela. Antes era um sapo, e para cobrir fiz a borboleta, as esferas verdes na borboleta são restos do sapo.
Melinda sorriu com vontade.
- Então, temos o primeiro caso a borboleta que venceu o sapo.
- É, mais ou menos isso.
Ambos caíram na risada.

VII - A Via da Salvação.
Ian deixou Melinda ler a sua obra prima, o famoso Conto VI, o seu desabafo. Ela ficou no computador lendo e Ian se deitou na cama ao lado dela. Depois de uns minutos, em que Ian quase caiu no sono, ela começou a dar risada, que depois de alguns segundos se tornou uma gargalhada histérica e gostosa de ouvir.
- A vaca? – Ian perguntou.
- Sim. – Ela disse, e foi a única coisa que conseguiu dizer, acreditou por um segundo que iria se mijar de tanto rir. – Meu Deus! O que é isso?
- Ah, viagem minha!
- Genial, adorei.
- Obrigado!
Ian sabia que qualquer um que tivesse lido aquele trecho lisérgico de seu conto teria uma reação parecida com a de Melinda, mas naquela altura, o conto em si não tinha muita importância, achava que sua vida era mais importante. E aquele trecho aparentemente inocente e cômico no conto seria o que tiraria todas as dúvidas sobre a habilidade sobrenatural que aquele conto havia adquirido. 
- Alguém mais tem esse conto? – Ela perguntou.
Ian se arrepiou. Estava prestes a dizer “não” quando se lembrou que havia tirado uma cópia para a sua professora de literatura do cursinho, ainda quando o conto estava em processo de idealização, Mas mesmo assim, naquele protótipo já havia desgraças demais.
- Merda! – Pensou alto.
- O que foi?
- Passei para uma professora.
- Isso é ruim?
- É se eu tiver de destruí-lo.
- Ah... – Ela não soube dizer mais nada.
- Soei confuso? 
- Sim. 
- Acho que não deveria ter posto tanto de mim num pedaço de papel, só isso.
(Ela não vai acreditar, ela vai insistir e perguntar, e eu vou ter de contar, e ela vai achar que eu sou doido)
- É. Isso aqui realmente está pesado demais.
Terminaram essa conversa por isso mesmo. Decidiram que iriam pegar o violoncelo no dia seguinte. Chegaram à conclusão de que já haviam avançado o suficiente por aquele dia.
Ian a deixou em casa e depois voltou para casa, precisava ficar de vigia. Chegou em casa, preparou um sanduíche com qualquer coisa
(por que diabos mãe prepara uma salada de carne?)
e se sentou à frente de sua casa.

VIII – Coração Atômico de Mãe
Eram oito e meia da noite.
O horário de verão ainda não havia permitido o sol de se pôr completamente. O céu estava com um tom lilás. As luzes de alguns postes na rua já estavam acesas, um tom amarelado preenchia o ambiente, dando um aspecto espectral à sua vizinhança. 
Ian estava sentado na calçada, encostado à parede de sua casa. Suas mãos estavam úmidas de suor. E com certa freqüência limpava os óculos na camiseta que usava.
“Eu devia ter especificado um horário”, pensou.
Mas agora era tarde. Deveria ficar ali de vigia até a meia noite. Se aquilo não acontecesse, era paranóia de sua cabeça. 
Mas, e se acontecesse?
E se o absurdo dos absurdos acontecesse, bem em frente a sua casa?
E se ele perdesse o controle?
E se...
“Pare de pensar essas besteiras!” gritou para a sua própria mente. 
Naquele exato momento, onde quer que esteja, Dorian deveria estar rindo, e com gosto. Não sabia por que, mas Ian sentia que ele o odiava. Pensar nele fazia com que os pelos em sua nuca se arrepiassem como se fosse um gato após encontrar, sem querer, um cachorro ao pular o muro do vizinho.
Ele era o gato, Dorian, era o cachorro.
Ele era o sapo, Dorian, a borboleta.
Ele era Dorian, agora não é mais.
Ian sempre pensou em Dorian como uma imagem de si mesmo. Isso até começar a sentir que sua cria havia ganhado vida própria. Depois de Dorian ter levado o resto de pizza para a casa de Ian, Dorian havia ganhado aparência própria. Ian era moreno, cabelo dividido ao meio, mas ainda de uma forma meio rebelde, e ainda usava os óculos.
Dorian agora era loiro. Tão loiro que seus cabelos chegavam a ser alvos. Fios maiores e mais rebeldes, como se ele sempre tivesse acabado de acordar. Ian tinha olhos castanhos. Dorian agora estava com olhos cor de mel, quase amarelos.
E o que mais enchia Ian de ódio.
Ian era uma pessoa séria. Sabia rir de si mesmo e das ironias da vida, mas sempre que se olhava, ou quando se imaginava, estava sério. Já Dorian estava sempre sorrindo. Um sorriso irritante. Como se estivesse o tempo todo zombando de Ian. 
Nove horas.
Ian quis um cigarro. 
Não era fumante, e havia fumado muito pouco em sua adolescência. Mas sabia o quão aquilo ajudava a controlar a ansiedade. 
“Fique calmo em troca de um câncer”, e riu de si mesmo.
Dorian fumava? Ele ainda não havia definido isso. Mas agora deveria estar fumando um cigarro. Um Marlboro azul. Ian havia perdido o controle sobre ele. Bem... que morresse de câncer.
Dez horas.
Seu estômago estava doendo.
Não sabia se era acidez, ou refluxo, ou qualquer problema de ordem psicossomática, que atacava seu estômago. Sabia que estava doendo.
Estava sentindo dores havia um tempo. 
Uns dias atrás, não sabia definir exatamente desde quando estava com dores, agora sabia definir até o horário em que elas começaram.
“Dorian estava chorando ao telefone...”
Desde que escreverá essa frase, o começo da Via da Salvação, o começo de toda essa paranóia, ele sentia aquela dor em seu estômago.
Onze horas.
Sua mãe já deveria ter chego. 
Ian atravessou a rua, e voltou. Precisava esticar as pernas.
Algum paciente de sua mãe deveria estar dando problemas a ela.  Quando isso acontecia, ela chegava tarde. Houve dias em que ela chegou mais de uma da manhã. 
Ian pensou em seu pai.
Os seus pais estavam divorciados há alguns anos. E via seu pai com pouca freqüência. Estava com saudades dele. Ele provavelmente não estava com saudades de Ian.

Onze e cinqüenta e nove.
A comemoração de Ian se limitou a um suspiro de alívio.
A loucura toda havia acabado. 
Nada iria acontecer. Ian saiu vitorioso em uma batalha imaginária. 
  Levantou-se da calçada dando risada de si mesmo. Olhou o horário em seu relógio de pulso. 
Um alívio ainda maior surgiu quando o relógio apitou meia noite, e o dia de hoje se tornou o amanhã.
Ian desejou que o dia acabasse às seis da manhã para poder contemplar o sol nascendo, e enterrar os seus temores à luz do dia.
Mas agora ele deveria ligar para a sua mãe. Estava ligeiramente preocupado com ela, pois geralmente ela ligava quando havia algum imprevisto e chegaria tarde.
Abriu o portão e entrou na área de sua casa, quando começou a escutar um pequeno zumbido.
Era grave e contínuo e parecia estar cada vez mais perto. 
Ian voltou para a calçada. Olhou para os dois lados, para cima, e nada. Apenas a mesma escuridão e as luzes amarelas.
O barulho de um carro se aproximando se junto ao zumbido contínuo. Ambos se aproximando. 
Ele se virou para a esquina esperando um carro surgir. E assim aconteceu. Era a sua mãe.
A luz do carro passou por ele durante a curva e à medida que ele se aproximava da casa dele, ia perdendo velocidade.
O zumbido ainda continuava.
A mãe de Ian parou o carro de frente para a garagem e esperou que seu filho abrisse o portão. Ian começou a fazê-lo, de costas para o carro, quando ouviu o estrondo.
O barulho foi uma mistura de vidros quebrando, lataria de carro sendo esmagada, e ossos se partindo.
Cacos de vidro atingiram as costas de Ian e caíram no chão. A sua sombra projetada pela luz do carro, antes, estava no chão da garagem. Subitamente começou a ser projetada no teto da mesma. Como se estivesse o iluminando por baixo.
Ian se abaixou para se proteger. E só depois de uns segundos se levantou. 
Havia muita poeira, e um choro baixo.
Um gemido de dor.
Ian se virou e gritou. Achou que um carro em alta velocidade havia se chocado com o de sua mãe.
Mas o que viu ao se virar foi bem longe disso.
- Mãe! – Ele gritou.
Mas ela não respondeu. Havia apenas um gemido de dor contínuo, carregado de sofrimento.
E esse gemido não vinha de sua mãe.
Ian observou o carro. Limpou os olhos com as costas da mão e observou de novo.
Ânsia, tontura. Achou que ia apagar.

Sobre o capo do carro, deitada, ainda viva, gemendo de dor e mexendo as patas como se estivesse correndo havia uma...
(não pode ser!)
...uma vaca!

Autor: João Kauê Aguena Guirro. Para saber mais sobre o autor, conheça seu blog (aqui!).

P.S.: Amanhã vai ao ar a última parte do conto. Fique de olho! ;)

10 comentários:

  1. Jamais imaginaria esse final. Sensacional!!!

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    Blog: Que play perfeitaaaaaa *o* seu gosto musical é igualzinho ao meu hauahau adorei \o/

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  4. Caramba. Contos tensos, hein? Li o primeiro e o de hoje e meu Deus, chega logo amanhã para eu saber o final hahaha. A palavra (escrita ou não) realmente tem poder, né?
    Beijocas,
    Carol
    www.pequenajornalista.com.br

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    1. Oii Carol, vou postar daqui a pouco!

      Realmente, palavras têm uma grande força.

      Beijo!

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  5. Uma vaca?? Tadinha, mano D: tô adorando mesmo esse conto! Achei muito legal como o autor consegue introduzir o romance à história, e intercalar em momentos lúcidos e outros insanos. Ele consegue manejar isso muito bem, sem perder o rumo

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Vem conferir o Especial de Halloween que tá rolando na Caverna!

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    1. hahah coitada da vaca também, né? :X
      Que bom que você tá curtindo, Carol!

      Beijo!

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  6. Ameiiiiiiiiiiii! Nunca ia imaginar esse final! haha

    Bjs
    www.garotadebotas.com

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  7. ADOREI o fim!!!
    bom final de semana lindona

    www.tofucolorido.blogspot.com
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  8. adorando a blogosfera em clima de halloween *--* adorei o texto.


    Abraços, Edwin.
    www.oquefaltou.com|Facebook|Twitter|Instagram

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