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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Especial de Halloween: Conto VI - parte 3

O Halloween chegou e com ele a última parte do Conto VI. E gente, o final está surpreendente, vale a pena ler!!

Se você ainda não leu, clica aqui para ler a primeira parte e aqui para ler a segunda parte.  

IX -  Interlúdio.
Dois braços e uma costela quebrada. Não corria mais risco de vida e estava apenas repousando.
Ian estava sentado ao lado do leito de sua mãe no hospital.
Era manhã do mesmo dia.
Ian estava se sentindo culpado pelo que havia acontecido. Alias, ele era o único culpado pelo que havia acontecido.
Nenhuma testemunha ocular, apenas alguns vizinhos viram o resultado do que aconteceu. 
Aparentemente a mãe de Ian havia atropelado uma vaca na frente de sua casa. Mas Ian sabia que isso não havia acontecido.
A vaca havia caído do céu.
Jamais iriam achar uma explicação lógica para isso. Mas a vaca havia caído do céu. E Ian sabia disso, afinal, foi o que ele escreveu no seu Conto VI.
Ian ligou a televisão, e as notícias já estavam correndo.
Uma mulher loira com um microfone estava à frente de sua casa. O carro ainda estava no mesmo local. A vaca deveria estar num veterinário, uma fazenda, ou sacrificada, não importava.

“ Um pequeno acidente, no mínimo, curioso aconteceu na madrugada de hoje no pequeno município de (barulhos de carros passando). Durante a madrugada de hoje um carro foi atingido por uma vaca, que aparentemente havia caído do céu. O acidente resultou em nenhum morto e apenas um ferido. A polícia está investigando o caso. Acreditasse que...”

Ian desligou a televisão.
Não achariam explicação lógica para aquilo.
Virou-se para a sua mãe. Ela estava com os dois braços enfaixados, usava aquele típico avental de hospital. Estava dormindo como um anjo.
Ian começou a chorar.
- Me desculpe mãe! Eu vou consertar isso, eu prometo.
E saiu do quarto. Saiu do hospital e voltou para casa.
Na frente de sua casa não havia mais carro, ou repórteres, muito menos uma vaca. Apenas cacos de vidro. Cacos de um acidente absurdo que anunciava um absurdo ainda maior.
Entrou, ignorou o telefone tocando, e se dirigiu ao seu quarto.
Ligou o computador. Abriu o Conto VI.
Sem pensar duas vezes, o apagou, sem deixar qualquer vestígio ou vírgula. As dezenas páginas virtuais de desgraça repentinamente viraram apenas um parágrafo em branco.
Ainda teria de destruir o que estava com a sua professora.

Foi como se fosse um estilete. Ian gritou de dor pôs a direita na omoplata esquerda e caiu no chão de dor.
Era como se um estilete estivesse rasgando a sua carne. Gritava e tremia no chão de dor, e como ela veio ela se foi.
Ian não soube dizer se durou um minuto ou uma semana. A dor foi gigante.
- Mas o que está acontecendo? – Gritou para ninguém. Um ninguém chamado Dorian.
Nada respondeu.
Ian se levantou do chão de seu quarto. Sentiu suas costas formigarem. Uma dor leve espalhada por todo o seu corpo.
“Mas que diabos está acontecendo?” , pensou. 
Levantou-se e se dirigiu ao banheiro, tirou a camisa e tentou olhar suas costas no espelho.
Estacou.
O que era aquilo?
Formado em cicatrizes, como se tivessem sido algum ferimento de anos atrás, em suas costas, havia algo escrito.
Analisou bem e percebeu que era um número, de oito dígitos, com um palmo de extensão, na sua omoplata esquerda.
“Lá se foi a minha próxima tatuagem”, não pode deixar de pensar.
Analisou bem o número, e o decorou. O espelho refletia-o ao contrário, mas depois de alguns instantes conseguiu decorar o número. Então saiu e foi à sala.
Ele tinha certeza de que era um número de telefone, ele tinha certeza de que era Dorian quem atenderia ao telefone. Ele sabia disso, por que Dorian sabia disso.
Hesitou uns segundos na frente do telefone. Suas mãos estavam tremendo e suando, sua cabeça latejava. Agora ele tinha certeza de que a loucura havia o alcançado.
Ele iria ligar para um personagem de um de seus contos.
Sentiu-se como se estivesse flutuando. Divagando em um mar de loucura e medo.
Respirou fundo, pegou o telefone e discou.
“Foda-se” disse a si mesmo.
Cada sinal de chamada era mais um passo à loucura. Ian sabia.
Depois de quatro ou cinco toques
(ou quarenta ou cinqüenta?)
Alguém finalmente atendeu.
- Alô! – Disse uma voz feminina, e uma voz familiar. – Alô? Quem fala? 
- Alô! – Teve coragem de começar a falar. – Por favor, com que falo?
- Aqui é a Laís. Com quem falo?
Ian sentiu um misto de alívio e surpresa.
Laís era a diretora da escola onde ele havia estudado e onde estava fazendo cursinho. Ela o conhecia e Ian achava que ela gostava dele. Sempre fora um aluno dedicado, e tinha contato com a diretoria da escola. Ela o conhecia bem.
- Ah! Bom dia Dona Laís! Aqui é o Ian, da escola.
- Olá querido! Bom dia! Fiquei sabendo o que aconteceu à sua mãe! E como ela está?
- Bem, ela teve uns ossos quebrados, mas nada mais grave, graças à Deus!
- Que bom! Fico feliz em saber.
- Ela logo estará em casa e daqui um mês, no máximo, voltará a trabalhar.
- Muito feliz em saber meu anjo. Mas enfim, qual o motivo dessa ligação?
- Ah sim! Me desculpe incomodar, mas é que esse número estava anotado aqui em cima da mesa e pensei que era alguma coisa para mim, sinceras desculpas.
- Estranho. Mas bem, não é nada sério, ou é?
- Acho que era o número errado, ou eram anotações de minha mãe. Me desculpe novamente.
- Sem problemas. 
- Bem, então eu vou desligar.
- Tudo bem. Por favor, diga à sua mãe que perguntei por ela e que estimo melhoras.
- Considere avisado.
- Bom dia Ian!
- Tenha um bom dia!
E desligou.
Sentiu um misto de alívio, e confusão. O que estava acontecendo? Por que diabos Dorian queria que eu ligasse para a diretora da escola?
Por que diabos...
O telefone tocou novamente interrompendo o raciocínio e ele atendeu.
- Ian? – Era Melinda.
- Sim, sou eu.
- Meu Deus Ian, fiquei tão preocupado com você. Todos estão comentando na cidade.
- Está tudo bem, minha mãe não se feriu gravemente.
- Ah, que bom!
- Melinda... – Ele queria contar a ela tudo o que estava acontecendo. Mas não pelo telefone. – Poderíamos nos encontrar hoje?
- Claro Ian, eu quero te ver.
- Então, como faremos?
- Bem. Eu vou ao teatro municipal daqui a pouco pegar o meu violoncelo.
- Daqui quanto tempo?
- Depois do almoço.
- Eu estarei lá.
- Ian, estou de saída, almoçar com a mamis em um restaurante.
- Tudo bem. Lá pela uma e meia da tarde no Teatro?
- Fechado! Mas eu posso me atrasar um pouco.
- No problem my honey!
- Então até mais.
- Até mais meu anjo.
- Ian?
- Oi?
- Você aparenta estar bem humorado.
- Bem. Não é todo o dia que uma vaca cai no carro de sua mãe, não é?
Ambos sorriram.
- Até mais.
- Eu amo você.
E desligaram.
Ian tinha algo para fazer antes de se encontrar com Melinda. 
Precisava pegar a Via da Salvação com sua professora e destruí-lo. Iria pega-lo de destruí-lo junto de Melinda, por fim decidiu. Queria que ela tivesse uma participação significativa nessa história. Queria que Melinda fosse a sua Via da Salvação.

X – O Sapo e a Borboleta.
Ian foi direto à casa de sua professora de literatura. 
Tudo o que tinha de fazer era reaver o conto e destruí-lo. Não seria nada muito complicado.
Foi a pé, pensando nos dias doidos, e que eles terminariam ainda hoje. E de repente percebeu. Estava realmente bem humorado.
Tocou a campainha da casa dela. E depois de uns segundos a porta se abriu. Era ela.
- Olha que surpresa. Bem vindo Ian.
- Bom dia dona Tamires.
- Por favor, fora da escola, me chame só de Tamires.
- Tudo bem.
- Por favor, entre.
- Na verdade, estou com pressa. Eu só queria pegar uma coisa com a senhora.
- Imagino que seja o seu manuscrito.
- Exato. – Ela lhe poupara o trabalho de ter de explicar ou inventar uma desculpa.
- Claro, espere um minuto que vou pega-lo.
- Obrigado.
Ela entrou e Ian ficou esperando na porta. Tinha sido mais fácil do que ele poderia imaginar.
Depois de até menos de um minuto ela voltou com o conto.
- Aqui está Ian. E, meus parabéns. Ficou impressionante, você tem um talento natural para isso.
- Obrigado. – Adorava, como quase todas as pessoas, quando enchiam o seu ego.
- Gostaria de ler mais coisas de sua autoria.
- Sim claro. Será um prazer. Ainda mais por que esse aqui, não ficou lá essas coisas. E hoje de manhã decidi destruí-lo.
- Por quê? 
Ian se arrependeu de ter dito aquilo. Teria de inventar uma desculpa para a professora que ele tanto adorava.
- Digamos que eu desabafei demais em cima dele, e que isso me causou problemas.
- Tudo bem, eu entendo. – Finalmente entregou as mais de dez folhas nas mãos de Ian. Ele sentiu o peso que elas tinham. Sentia a vida dentro daquelas folhas. Sentia Dorian.
- Muito obrigado Tamires, e obrigado por ter lido.
- Foi um imenso prazer Ian. – Fez uma cara um pouco preocupada. – E me desculpe por te-lo usado como bloco de notas.
- Sem problemas, eu irei destruí-lo mesmo.
Ian olhou na capa do manuscrito. 
Via da Salvação, por Ian Tenrosse. 

E logo abaixo algo que o fez tremer dos pés à cabeça.

- Tamires, por favor. Esse não seria o telefone da dona Laís?
- É sim Ian.
- Ah, obrigado. Vou me indo.
- Tenha um bom dia Ian.

E ele seguiu caminhando imerso em pensamentos para o Teatro Municipal. 
Uma pequena anotação na capa do manuscrito havia feito um estrago gigante nas suas costas.
O que aconteceria se ele destruísse o conto? Será que seria destruído junto?
Dorian havia armado isso para cima dele. Aquele desgraçado queria garantir que iria permanecer com vida.

Chegou ao Teatro Municipal e sentou-se na calçada. 
Estava sentindo um ódio avassalador por Dorian, mas acima disso estava se sentindo um idiota. Havia criado um monstro, e um pesadelo para si mesmo.
De dentro do Teatro Municipal uma música começou a soar. Alguém estava tocando piano.
Ian se levantou e entrou no teatro.
As portas estavam estranhamente abertas. Mas havia umas pessoas trabalhando em alguma reforma do outro lado do mesmo. Parou de pensar sobre isso. 
A porta de entrava permitia uma visão das cadeiras onde o público sentava.  Observar aquilo vazio lhe trazia uma sensação de vazio, e uma sensação fantasmagoria, como se não estivesse sozinho.
E de fato, não estava.
Alguém no palco estava tocando piano. Era Claire de Lune, primeiro movimento. Ian era apaixonado por essa obra.
Sentou-se na primeira cadeira perto da porta enquanto esperava por Melinda. Ainda apreciando a música. 
No chão, perto de seus pés ainda havia um dos panfletos do pequeno recital onde fora assistir Melinda dias atrás. Pegou-o descompromissadamente e começou a folheá-lo.
O recital havia sido aberto com um quarteto de cordas tocando uma peça de um músico russo ou alemão que Ian nem imaginava como se pronunciava o nome. A peça seguinte foi à apresentação de Melinda. Ian se lembrou o que sentira naqueles momentos em que aquele anjo estava no palco, e como aquela apresentação havia sido mágica.
A peça seguinte era essa que ele estava ouvindo naquele exato momento. Ian não se lembrava de ter assistido. Depois se lembrou que havia saído antes mesmo dela começar.
Repentinamente estacou. Seu corpo gelou dos pés à cabeça. Sentiu ânsia de vômito.
Dorian.
Era Dorian quem estava atrás daquelas cortinas.
Foi Dorian quem a executou na íntegra, sozinho, naquela noite mágica.
“Como eu não percebi isso antes?”
O nome de Dorian estava lá, o tempo todo, naquele maldito panfleto. Não acompanhava nenhum sobrenome. 

Claire de Lune Sonata in Cm – Beethoven. Por Dorian.

Ian respirou. Tomou coragem e se levantou.
Do outro lado da cortina uma risada sinistra soou juntamente com a música. Ian se dirigiu ao palco e atravessou as cortinas.
E lá estava ele, sorrindo para Ian, sem interromper a música.

- Olá meu caro. – Dorian o cumprimentou.




 XI -... e o espelho quebrado.
Ian apenas fitava. O desgraçado estava bem na sua frente. Usava uma camisa branca e uma calça preta. Cabelos loiros e rebeldes, exatamente como Ian o imaginou. E aquele irritante sorriso no rosto.
Tocava com uma naturalidade e facilidade assustadora. A música era lenta e não exigia muito de quem a executava, mas o modo como ele fazia era mágico, assustador.
Terminou o primeiro movimento e começou o segundo sem interromper a execução e finalmente se pôs a falar:
- Por que está me olhando dessa forma?
- O que você quer de mim?
- De você? – E começou a rir. Alto, em tom de deboche. – Meu caro Ian, o que eu poderia esperar de você?
- Por que está fazendo isso comigo?
Dorian bateu uma nota dissonante e sem acordo nenhum com a música.
- Por que VOCÊ está fazendo isso comigo? – Gritou a palavra “você”.
- Eu não estou entendendo.
- Isso não me surpreende. 
- Dorian, por favor, apenas saia de minha vida.
- Assim que você sair da minha.
- Pelo amor de Deus, o que eu estou fazendo? – Ian colocou a mão que não segurava o conto em sua barriga. Seu estômago doía. – VOCÊ É APENAS MINHA IMAGINAÇÃO! - Gritou.
- E VOCÊ É APENAS MINHA IMAGINAÇÃO! - Ele gritou de volta.
- Por que você está aqui?
- Por que você me criou?
Dorian era só um personagem de sua cabeça, era apenas algo que Ian usou para desabafar as desgraças de sua vida. Não era uma pessoa.
- Você não existe.
- Acho que essa conversa prova o contrário.
- Você quer o conto? É seu! Tome, leve!
- E o que eu faria com esse lixo de segunda categoria?
- Então me conte. Por que você está aqui?
- Apenas me cansei de ser usado por um tolo. Cansei de ser um complemento de sua vidinha miserável e cansei de sentir a sua dor, cada instante de minha vida.
- Você quer que eu o reescreva? Tudo bem, eu faço! Mas suma daqui.
- Meu nome, minha aparência, meus parentes, minha pequena Samara. Todos baseados em pessoas medíocres de sua vida. Eu tenho nojo de você meu caro. E quero você fora de minha vida.
- Eu você é apenas uma imagem minha. Algo que eu criei.
- Um aperfeiçoamento de sua mente doentia. Eu sou sua dor.
Ian estacou. Havia se enganado por um bom tempo até assumir, e quando assumiu á si mesmo, nunca mais retornará a pensar nisso.
O nome de Dorian havia saído do livro de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”. Isso era o que ele dizia às pessoas. Mas ele apenas havia criado o nome de acordo com o sentimento do conto.
Dorian. A Dor de Ian.
- Dor Ian, apenas dor. – Dorian disse. – Você não imagina pelo que você me fez passar.
- Quer se vingar?
- Não Ian, eu não quero nada de você. Apenas pegue esse conto e jogue no lixo. Inteiro, como ele está.
- Mas você continuará existindo.
- Essa é minha intenção.
- E todas aquelas coisas horríveis irão acontecer comigo.
- Aconteceram comigo.
Ian deu um passo para trás. Dorian começou o terceiro movimento.
Seus dedos se mexiam com técnica e perfeição únicas. Aquele movimento era rápido e exigia uma técnica avançada. Mas Dorian estava executando-a com uma facilidade assustadora.
- Me desculpe. - Ian disse.
- Sua culpa me diverte. Agora você sabe o que fazer. Apenas me deixe viver.
- Me desculpe novamente. Mas não posso.
Dorian pareceu estar levemente irritado. Ian continuou.
- Isso deve terminar aqui. – Ia completou. Dorian apenas fechou os olhos. Estava visivelmente irritado, e concentrado na execução da música.
Um momento depois sorriu e abriu os olhos.
- Muito bem Ian. Que assim seja. Destrua-o. Mas saiba que eu não serei o único que você levará. – Ian sabia que havia esses “poréns”. Mas ouvir isso de Dorian era saber que iria morrer. Depois pensou que seria melhor morrer do que viver carregando a culpa das desgraças que viriam a seguir. 
- Agüento as responsabilidades. – Ian sorriu, havia pegado ele.
Dorian parou a execução. Interrompeu-a sem terminar. Virou-se para Ian com aquele sorriso irritante e provocativo.
- Não estou falando de você.
Um barulho atrás de Ian chamou-o atenção e ele se virou. Era Melinda, estava carregando o estojo de seu violoncelo olhando assustada para Ian.
Ele se virou para o piano novamente, mas não havia nada lá. Dorian havia sumido.
- Ian? Você está bem? – Ela perguntou.
- Não muito. – Disse distraído e apático. – Vamos embora daqui.
- Claro.
E saíram juntos do teatro pela segunda vez.

XII – Luz do dia, dia de escuridão.
Ian estava calado e com uma expressão sofrida. Melinda estava preocupada com ele. Estava monossilábico. 
Ele não sabia o que fazer. As ameaças de Dorian não foram claras o suficiente, mas ele temia por Melinda.
Foi uma caminhada quieta longa para a casa de Ian. O clima estava pesado.
- Me desculpe! – Disse Ian em certo momento durante a caminhada.
Melinda não entendeu, mas não queria prolongar o assunto. Nada disse.
Foram até a casa de Ian. Ao entrar na sala o telefone tocou. Ian se aproximou dele e com um movimento rude, puxou-o da linha e o desligou.
- Ian, o que está acontecendo? – Melinda finalmente perguntou.
- Não é nada. Eu só não estou bem.
- Essa é a confiança que você põe em mim?
- Me desculpe!
- PARE DE PEDIR DESCULPAS! – Ela gritou. Ian se assustou. Não esperava uma reação dessas de Melinda.
- Eu... – Não conseguiu terminar.
Melinda o fez sentar no sofá de três lugares vermelho da sala e se sentou ao lado dele.
- Ian, olhe só para a sua cara. Nunca te vi com uma expressão tão sofrida.
Ele não respondeu nada. Não sabia o que dizer para ela. Deveria contar tudo? 
Em algum ponto no inconsciente dele, sabia que não deveria jamais tocar no assunto com ela, mas suas emoções estúpidas estavam tomando conta naquele momento.
Ela merecia saber. Ela precisava saber.
Ele se virou para ela. Melinda estava com os olhos brilhantes. Ele voltou a olhar para o chão e apoiou a cabeça nas mãos.
- Melinda. – Finalmente começou a falar. – Eu nunca mais quero me separar de você. Você tem sido tudo para mim esses últimos tempos. Você tem sido a luz do meu dia. Uma razão para continuar. – Começou a chorar. – Mas nesses tempos eu tenho de lidar com essas coisas estranhas que vêm acontecendo. E não sei o que fazer.
- Ian... 
- Então cada desastre que acontecer em minha vida será culpa minha. Eu simplesmente não agüentaria. – Abraçou-a. – Eu não agüentaria sozinho. Por favor, fique comigo Samara.
- Ian. Você está confuso.
- Eu sei disso.
- Ah, Ian, me dói tanto te ver assim.
Nesse exato momento ele soube o que fazer. Não importava o que acontecesse, deveria manter aquela pessoa ao seu lado. Mas não poderia deixar Dorian controlar cada faceta de sua vida.
- Mel. Tem uma coisa que eu quero que você faça comigo.
- Tudo para te ajudar.
Ela estava na cozinha, ele tinha ido ao mercado comprar algo para eles tomarem. E, contrariando suas próprias limitações, pegou uma garrafa de vinho. Quando ele entrou em casa sentiu o cheiro delicioso do que ela estava preparando na cozinha. Colocou o vinho sobre a mesa e se dirigiu à cozinha.
Andou até ela e sorriu. Um sorriso doce, mas com uma pequena sombra de tristeza. Ela estava usando o avental que a sua mãe usava para cozinhar. Ficava com uma aparência caseira extremamente agradável.
- Mel, você daria uma boa mãe. – Ian disse. Como ela estava linda.
- Seu bobo. – Ela tinha ficado com vergonha.

Sentaram-se à mesa. Já haviam conversado sobre o absurdo que havia acontecido à sua mãe, sobre a família de Melinda, e sobre outros pequenos assuntos diversos.
Ela havia preparado uma espécie de frango com um molho esquisito mas delicioso.
Brindaram, comerem, beberam, se divertiram.
Acabaram novamente nus deitados no chão da cozinha.
Ian estava sorrindo, para o alívio de Melinda. E depois de alguns segundos deitados naquele chão frio ele se levantou
- Vamos? – Ele perguntou, animado.
- Sim.

Vestiram-se e saíram.
Iriam para o parque próximo e lá o fariam, juntos.
Caminharam de mãos dadas sob as luzes amareladas dos postes. Ian novamente havia se afundado em pensamentos sobre o que aconteceria a seguir, mas dessa vez, tinha certeza de vitória. 
Sentia a mão quente de Melinda suada em suas mãos.
Aquele calor, aquele carinho, nada disso poderia ser ilusão. Era hora de acabar com tudo isso.
Entraram no parque e Ian parou na primeira árvore que viu. Ela era grande e durante o dia daria uma bela sombra. Agora de noite, ela tinha um aspecto assustador.
- Foi aqui. Fazer acabar com isso aqui.
- Tudo bem. – Ela sorriu para ele. Ela sabia que ele precisava de alguma força para isso.
Ian pegou as dez folhas que compunham o que restou da Via da Salvação e jogou no chão. Melinda abriu sua bolsa e tirou o fluido de isqueiro e passou para Ian.
Ele lentamente jogou sobre as folhas. Enquanto a folha se umedecia e o fluido penetrava, as letras borravam. Já estava destruindo Dorian.
Não sentiu dor nenhuma, e nenhuma sensação esquisita.
Ele se ajoelhou.
- Melinda, me desculpe por ter de participar disso, que mais está parecendo um ritual satânico.
Ela deu risada.
- Está tudo bem.
“Você está fazendo uma idiotice.”, pensou. A voz em sua cabeça não era dele, era de Dorian.
“Cale a boca, isso logo estará acabado, não sei se só para você, ou para nós dois. Mas logo estará acabado.”, Ian
  “Você não entendeu nada.”, Dorian.
Ian pegou a caixa de fósforos.
“Talvez não, mas isso logo estará acabado”, Ian.
“Que assim seja, idiota. Mas saiba que o que acontecerá aqui, não será comigo e com você. Você é real.”, Dorian.
“...”, Ian
“Você acha que uma garota linda dessas iria se interessar por você do nada?”, Dorian.
“O que você quer dizer?”. Ian.
“...” Dorian.
Ele havia se calado.
Ian ficou com medo. Havia entendido perfeitamente o que ele havia dito.
E lá, ajoelhado sobre os papéis que deveriam queimar. Com um fósforo em uma mãe e a caixa em outra, a um passo de terminar tudo isso, travou.
- Ian? – Melinda perguntou.
No fundo ele sempre soube que Melinda era perfeita demais para ele. No fundo ele sabia que ela era muito idealizada para ser verdade. No fundo ele estava chorando.
Sempre soube que momentos de felicidade acabavam. Que uma hora os sorrisos acabavam e a tristeza voltava. Que o único sentimento constante era o vazio.
Aquilo deveria ser feito.
- Melinda.
- O que foi? 
- Você tem sido tudo para mim. Eu amo você, sinceramente.
- Eu também te amo.
- Você tem sido minha luz do dia. – Ian riscou o fósforo. – Mas hoje é um dia de escuridão. – E jogou-o sobre as folhas.
Levantou-se e abraçou-a. Sentiu o calor dela em seus braços. O amor que ele havia criado. Todo o carinho. A pequena história de poucos dias que haviam criados juntos. Aquilo não poderia desaparecer.
Ela o abraçou de volta. Apertado. Nunca mais queriam se separar. 
Ao lado deles as folhas queimavam e deixavam de existir. Palavras se tornavam cinzas. Ilusões se tornavam cinzas. Destinos se tornavam cinzas.
- Nós andamos esse caminho todo. – Melinda começou a dizer ao ouvido de Ian. – Andamos e pensamos em seguir em frente. Encarar a dor, superar os fatos. São coisas que as pessoas dizem para nós. Mas todos nós sabemos a dor que é existir.
”Nós caminhamos sobre este chão, sem a certeza da cada passo. Olhamos o dia se tornar noite. Choramos, caímos, levantamos, assim como todos fazem. Uma tentativa inútil de nos tornarmos felizes a cada dia. Você tenta, você falha, você cai, você sangra, você quebra. E dia após dia tem de se levantar como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu. E você tem de sorrir, você tem de mentir, você deve alimentar as esperanças das outras pessoas com um sorriso no rosto, mesmo sabendo que a sua dor é exatamente a mesma das outras pessoas.
E uma hora você pára e pensa. Procura uma oportunidade de ficar sozinho onde ninguém pode te ver e chora. Continua não sabendo o significado disso tudo, das coisas à sua volta. Perde o significado das pessoas, e acaba se perdendo junto.
E sabe, isso é triste.
Gostaríamos de um sinal de que não estamos sozinhos. Procuramos insaciavelmente um mero sinal de que não estamos sozinhos. Um sinal de que não chegamos ao nosso triste miserável fim...” 

A cada palavra que ela dizia o calor em seu corpo ia sumindo. Como se cada emoção dela tivesse sido posta em suas palavras.
Ian em um momento qualquer da narração se pôs a chorar.
Era um dia de escuridão.
O dia quente em seus braços estava se tornando cada vez mais frio, e cada vez mais leve.
Quando ela finalmente se calou, Ian não sentia mais nada. Estava com os braços cruzados em si mesmo ajoelhado no chão.
No chão havia apenas cinzas.
Ele abriu os olhos e ela não estava mais lá. Nenhum vestígio.
Levantou-se e voltou de cabeça baixa para casa.

XIII – Outro.
Ian chegou à sua casa.
Haviam deixado à televisão ligada, uma mulher estava comentando sobre o caso de sua mãe novamente.
“A polícia descobriu hoje de manhã a origem do pequeno acidente que aconteceu na madrugada de ontem.
Aparentemente a vaca que supostamente havia caído do céu, na verdade caiu de um avião de transporte.
O animal caiu do avião durante o transporte e acertou um carro.
Ambos, o animal e a pessoa que foi atingida estão bem, com leves ferimentos.
Estou aqui com um veterinário que...”

Ian desligou a televisão.
Deitou-se no seu quarto e resolveu não pensar em nada. Apenas desaparecer.

Depois de uns minutos se levantou, sentou-se ao computador, abriu a Via da Salvação, e apenas escreveu.

“Dorian e Samara foram felizes juntos, por muito tempo.”

Não esperava que nada acontecesse. Apenas sentiu que devia isso a ele.
Deitou-se e dormiu.

Autor: João Kauê Aguena Guirro. Para saber mais sobre o autor, conheça seu blog (aqui!).

3 comentários:

  1. Nossa! Muito bom! Adorei todo o conto, que não pesa tanto no terror, e ainda inclui romance no decorrer. Bem criativo, e super gostoso de ler :D

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

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  2. Bem interessante o final do conto. Não me assustou, mas é um pouco tenso, né? hahaha
    Eu não sei se entendi direito, mas acho que no final deu para entender que os nossos pensamentos e palavras têm um poder, que meu Deus. E nossa imaginação também.

    Beijocas,
    Carol
    www.pequenajornalista.com.br

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